O campo das batatas

Ontem, o Doodle do Google me lembrou que hoje o maior escritor brasileiro faria 178 anos. Machado de Assis, um gênio que conquistou tudo o que quis conquistar e venceu tudo o que quis vencer.

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Cadê o Nobel pra esse cara?

Como não admirar o delírio do capítulo VII de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”? Ousado, vejam ainda a forma como Machado encerra o livro:

Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.

Que arremedo! Essa visão ácida da vida, da falta de sentido do presente e inutilidade de passado e futuro! Aliás, Quincas Borba não fica atrás, nesse sentido: Rubião, desprezado por Sofia, empobrecido e louco, morre na rua em Barbacena, acreditando ser Napoleão III. O final é emblemático, também:

Chora os dois recentes mortos, se tens lágrimas. Se só tens riso ri-te! É a mesma coisa. O Cruzeiro, que a linda Sofia não quis fitar, como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens.

Tanto faz, tanto fez. Homens e mulheres nascem, riem, choram e morrem e o cruzeiro não os vê. O realismo doloroso de um livro que transpira o darwinismo social. Enfim, não é absurdo dizer que Machado de Assis é meu autor nacional favorito.

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Reginaldo Faria em cena como Brás Cubas.

Falando em teorias literárias meio antropofágicas, parece que 120 anos não mudaram muita coisa desse conceito. Digo isso por que tanto a lógica determinista da tríade raça-meio-momento que o naturalismo de Aluísio de Azevedo apontava no Cortiço quanto a luta destrutiva do Humanitismo seguem em pauta na política brasileira, pelo menos. Lá em 1892, Machado conjecturou sobre a necessidade da guerra e seus benefícios para vencedores e vencidos.

Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.

O autor errou, é verdade: nós gaúchos comemoramos anualmente uma guerra que perdemos, mas OK, deixemos isso pra lá. Fora isso, essa mentalidade sempre pareceu, pra mim, apontar que a guerra é quase um ato de amor, em que o perdedor admite sua incapacidade de administrar os louros de uma eventual vitória. O vencedor colhe as batatas e é grato àqueles que se sacrificaram na conquista.

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Ao vencedor…

A diferença que temos em nossas casas representativas é que, diferente das lutas do Mortal Kombat e das batalhas do Coliseu, o perdedor sempre sobrevive. Ao vencido, não há ódio nem compaixão, apenas a expectativa pela próxima guerra e o próximo campo de batatas. Nessa onda, a paz é a destruição das benesses dos vencedores da guerra anterior; a guerra é a conservação e ampliação do deleite público; as batatas são o dinheiro e o futuro do país. E nós? Somos o campo sob o qual crescem as batatas. E seguiremos elegendo aqueles que, em guerra entre si, nos pisotearão e nos roubarão nossas batatas.

Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração.

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