Deuses existem e estão por aí, no meio de nós, basta acreditar. Com base nessa premissa, o autor britânico Neil Gaiman escreveu o excelente livro Deuses Americanos que, em 2002, recebeu os prêmios Nebula e Hugo (dois importantes prêmios de ficção científica e fantasia).
O livro conta a história de Shadow Moon, um homem que faz diversas descobertas ao sair da prisão e acaba se envolvendo em uma treta de proporções mitológicas, literalmente. O livro nos conta que deuses existem. Todos eles, contanto que alguém acredite ou tenha acreditado neles.

Gaiman, então, nos apresenta um conceito muito interessante: se a força de um deus está ligada na crença e na devoção das pessoas, os deuses do passado vem perdendo força e novos deuses surgem, pois são homenageados todos os dias. Ao passo que rezamos cada vez menos para Zeus ou Rá, nos dedicamos cada vez mais à tecnologia, às máquinas e afins.
Os templos que erguemos atualmente são os shopping centers, os sacrifícios humanos que fazemos são as mortes nas autoestradas e estamos rezando cada vez menos e postando em redes sociais cada vez mais. Logo, estes são os grandes deuses do nosso tempo. E os antigos não estão gostando muito disso. Gerando um conflito épico com o nosso protagonista Shadow, claramente um filho dos tempos de Flower Power, no meio de tudo isso.
Desse livro maravilhoso, foi produzida uma série também muito boa para o canal americano Starz (HBO tentou, mas desistiu), que estreiou esse ano e teve sua Season Finale recentemente, no oitavo capítulo (a segunda temporada já foi confirmada). Eu sempre fico numa emoção estranha quando isso acontece. Amo o livro e por isso entro no hype da série, mas por outro lado também fico achando que não vai ser fiel, que vai me decepcionar e tudo mais. Já adianto: não decepciona.

A série é muito boa. A fotografia é linda, as músicas são excelentes e a adaptação é bem boa (note que dei uma diminuída no tom aqui, mas gostei, de qualquer forma). Tudo começa pela entrada, que é maravilhosa e que já mostra a que veio. As escolhas artísticas de visual também são muito interessantes, apesar de algumas representações meio clichês.
E aí tem as músicas… ahhh as músicas. A série tem um tom road movie que fica bem claro também nas escolhas musicais, com artistas como Bob Dylan, Johnny Cash e Creedence Clearwater. Além disso, me ganharam ao tocarem musicas como Where Did You Sleep Last Night (que eu conhecia como sendo do Nirvana, mas que não é, só que tocada na série em uma versão cover chamada In the Pines) ou Don’t Let Me Be Misunderstood.
Esta última tem um trecho citado no livro (“I’m just a soul whose intentions are good”), bem como outras músicas, como San Francisco (“be sure to wear flowers in your hair“). Esta eu reparei quando li o livro, mas acredito que devo ter deixado muita coisa passar por ter lido em português. Quem for ler o livro tem que ficar atento, tem muita referência bacana.
A série também faz uma escolhas muito interessantes. É indicada para maiores de 18 anos (talvez seguindo uma tendência de séries como Game of Thrones e filmes como Deadpool) e por isso, muita gente pode se ofender com algumas coisas, como cenas de nudez ou violência. Além disso, a série parece ter uma preocupação de ser bem representativa, o que em um mundo ideal não deveria nem ser algo a ser reparado ou comentado como diferencial, mas enfim.
Recomendo fortemente que leiam o livro e assistam à série. Gaiman mostra a sua paixão e o seu conhecimento sobre mitologias e deuses a cada página (não só de Deuses Americanos, mas também através de todo seu trabalho de escritor, como em The Sandman, para citar apenas um exemplo). A fantasia dele tem me feito acreditar cada vez mais na frase “Deus está em todos os lugares”. O único erro dessa frase é que o sujeito está no singular.

(Se preparem, pois eu ainda vou falar MUITO de Neil Gaiman)

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