Anestésico

Acho que estou com dor de cabeça…

Final de semana com cara de final de namoro e os dois pombinhos feridos precisam conversar. Enquanto de um lado está o não-me-importismo de quem inspira os primeiros ares luxuriosos da solteirice, de outro está uma vontade urgente de significação para tudo o que foi dito e vivido. A perspectiva de um retorno à quietude dos corações vazios poderia causar reações completamente distintas em diferentes doloridas confusões, características dos últimos anos da adolescência. Não é o caso — nunca é. A primeira solução para ambos foi, a seu jeito, imergir na escuridão das companhias agradáveis: desconhecidos viram conhecidos, que viram os melhores amigos, pois não fazem as perguntas importantes enquanto tiram da dor da perda todo hormônio antidiurético. Se o jugo de uma decisão já não os prende mais, melhor seria que não o existisse, tal como memórias e nuvens escorrem da mente e dos olhos de quem passa a se encontrar tão completamente solitário.

Ele sai pra beber com os amigos de quem ela não gostava, ela faz o mesmo. Ela o retira da conta premium do Spotify, ele só entrava quando estava com ela. Ele apaga as fotos dela no Facebook, ela acrescenta várias sozinha e com amigas. Ambos ingerem o mesmo comprimido de oblívio compulsório, saem na mesma chuva de possibilidades e probabilidades do mundo dos disponíveis.

Sempre haverá algo para amenizar o efeito das mágoas que inexoravelmente virão. Para sol, ar-condicionado; para desespero, vícios. Anestésicos, somente. O homem é plenamente capaz de amortecer as alegrias da vida em todo o seu potencial, mas busca sempre um macio regaço para amenizar o peso da consciência. Qualquer dor é insuportável.

Alguém tem uma aspirina?

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