Hoje eu vi um homem morto.

Hoje eu vi um homem morto.

Hoje eu vi um homem morto. Todos os dias vejo homens e mulheres vivos; posso constatar, como aviso a mim mesmo, suas mortes em qualquer ponto futuro. Não vi um homem cuja sorte ainda estava lançada. Não vi um homem que agonizava, um homem cujo fim conhecido se aproximava a galope. Não vi um homem que já entrevia o tudo ou o nada que esperava ver quando o relógio silenciasse.

Hoje eu vi um homem morto. Todos os dias leio notícias que apontam mortes e assisto ficções que a mencionam diuturnamente. Não havia dúvida ou esperança de que, daquele corpo, viesse mais alguma arfada. Não havia alteração de estado, nem minha nem, para sempre, dele. Não haveria plot twist nem próxima temporada. A realidade foi atestada por mim e por diversos outros vivos a meu redor, cada um conferindo juízos e proposições a alguém que já não era mais.

Hoje eu vi um homem morto. Todos os dias ouço o barulho que Porto Alegre faz. Sinto os aromas nem sempre saudáveis de uma cidade diversa. Vejo os prédios históricos e buracos de ar-condicionado preenchidos com tijolos à vista. Não ouvi o som da Avenida Borges de Medeiros às 09 da manhã. Não aspirei o ocre odor de urina, alcatrão e álcool embaixo da passarela. Não vi pedintes, vendedores, comerciantes e pessoas atrasadas cruzando o Viaduto Otávio Rocha.

Hoje eu vi um homem morto. Enquanto via seu corpo coberto delicadamente com um pano preto, via também uma multidão parada, sondando-o, fotografando-o, tentando-o descobrir e entender. Enquanto via o sangue que formava um filete escorrer na direção da calçada, pensei no corpo escorrendo da Duque de Caxias em direção ao chão, ao fim. Três vezes antes e três vezes após passar por ele, as bocas da cidade me alertaram que algo macabro parara o trânsito, que seria necessária uma ambulância e carros da EPTC para a normalização do tráfego, que nada disso sairia nos jornais.

Hoje eu vi um homem morto. E no silêncio dele que me ensurdeceu, quase pude sentir a dor de sua última decisão.

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