Como dizem os americanos, first things first (“primeiras coisas primeiro”): lugar de fala. Sou homem e não sou lá uma maravilha de pessoa. Dito isso, vamos às minhas impressões.
It’s about what you believe. And I believe in love. Only love will truly save the world.
Eu poderia começar falando dos recordes que o filme Mulher Maravilha quebrou, como maior bilheteria de estreia de uma diretora mulher nos EUA (ficando atrás de Cinquenta Tons de Cinza, se considerarmos números globais), maior bilheteria de um filme live action dirigido por uma mulher (segundo dados do final de junho, Frozen: Uma Aventura Congelante, codirigido por Jennifer Lee, ainda está na frente), ou mesmo filme mais comentado do ano no Twitter, mas acho que não vou fazer isso.

Números como esseS não passam desapercebidos e são muito importantes, tanto na esfera cinematográfica, quanto na esfera social. Esse filme traz uma discussão de representatividade que extrapola a tela do cinema. Inclusive, daí que veio um dos ganchos que me motivou a escrever este texto. Eu já tinha perdido a estreia do filme e achei que talvez estivesse atrasado para comentar, mas em uma visita recente a um shopping center daqui de Porto Alegre, repensei isso tudo. Passei em frente a uma vitrine de uma loja de brinquedos e a vi tomada por bonecas da Princesa Diana e suas sisters in arms.
Fiquei muito feliz em ver as bonecas, que não entendi se eram da coleção da Barbie ou não, pois tinham o rosto semelhante ao da famosa boneca e diferente de action figures mais tradicionais, que buscam uma maior aproximação com o personagem do filme ou dos quadrinhos. Ao olhar para aquelas bonecas comecei a pensar em como agora as meninas podem optar por brincar de salvar o mundo ou de viver a vida mais cotidiana que as bonecas oferecem, tradicionalmente. O tempo da brincadeira de menina ser apenas cozinhar, cuidar da casa e afins chegou ao fim. Claro que isso ainda é uma possibilidade, mas o ponto principal é que agora é mais fácil escolher.
Meninas podiam brincar de salvar o mundo antes, mas com os “brinquedos de menino” (o que é uma separação besta, ao meu ver). Agora elas podem brincar e se sentirem representadas. Quando eu era pequeno, diversas vezes comecei uma brincadeira gritando “Eu sou o Batman!” ou “Eu sou o Wolverine!”. Meninas que gritarem “Eu sou a Mulher Maravilha!” possivelmente me encheriam de porrada.

Além disso, consigo ver tranquilamente meninos comprando bonecas da Mulher Maravilha para ajudar em suas aventuras inventadas agora. Estamos quebrando, aos poucos, a barreira entre o azul e o rosa da loja de brinquedos, que pode ser uma forma de quebrar outras barreiras da nossa sociedade. Com a chegada do filme da Liga da Justiça veremos ainda mais claro essa união entre super heroínas e super heróis, mesmo que seja apenas uma mulher e quatro homens (provavelmente cinco, mas sem spoilers até então).
Voltando ao filme. No Rotten Tomatoes, o filme está com 92% de avaliações positivas, mas uma nota média de 7.5. Essa nota sobe um pouco no IMDb, ficando em 7.9 e tem um Metascore de 76. Acredito que são notas baixas para um filme tão bom. Gostei muito do que a diretora Patty Jenkins fez com sua equipe. O filme é divertido, emocionante, bem construído e traz cenas de ação muito boas, além de uma trilha sonora empolgante. A trilha principal vem fazendo os cabelos do meu braço levantarem desde (a decepção que foi) Batman V Superman, que foi apenas um gostinho do que viria em Mulher Maravilha.

Zack Snyder falhou nos seus filmes com o tom sombrio que tentou trazer (por mais que eu goste mais de O Homem de Aço do que a maior parte das pessoas com quem converso). Jenkins trouxe uma heroína com uma motivação mais tradicional do mundo dos quadrinhos – o amor – e com isso pode ter começado uma nova onda para os filmes da DC. Por mais que o filme tenha cenas lindas, como as filmadas na ilha de Temiscira, há também cenas mais sombrias, pois a história se passa durante a Grande Guerra, a primeira guerra mundial. Mas a Princesa Diana é a super heroína que queremos ver há muito tempo, que luta por um ideal maior, pelo bem, e isso fica visível no filme. Não que outros não o façam, mas este filme é diferente, especial.
I used to want to save the world. To end war and bring peace to mankind. But then, I glimpsed the darkness that lives within their light.
Gal Gadot (que mulher LINDA) está perfeita no papel da amazona. Ouvi algumas críticas a ela, mas não vou nem entrar nesse mérito pois acho que basta ver o filme para que fique claro que ela foi uma boa escolha. Gadot é israelense, o que dá a ela um sotaque que acho que ficou bem na personagem, uma vez que esta também não é americana, apesar do traje. Além disso, por sua nacionalidade, ela também serviu no exército, o que pode ter influenciado na sua performance em um filme de ação. Ouvi algumas críticas a ela quanto às suas posições políticas, por vir de um país como Israel que tem uma posicionamento duvidoso no cenário político internacional, mas não pretendo me ater a isto, nem formar julgamentos sem muito embasamento.

Voltando ao casting, gostei muito da decisão da diretora com relação às amazonas do filme. As atrizes figurantes são todas atletas profissionais, o que fica claro só de olhar para elas. Elas tem uma diversidade em si que é muito interessante, ao mesmo tempo que aparentam ter uma unidade e uma sinergia de verdadeiras conterrâneas que partilham de uma origem e uma cultura. É possível ser diferente e ser igual, sim.
Ainda falando das amazonas, não posso deixar passar o papel de Antíope, a general das amazonas, irmã da Rainha Hipólita (logo, tia de Diana), interpretada por Robin Wright, a Jenny de Forrest Gump e a Claire Underwood de House of Cards (um filme e uma série que, por sinal, eu recomendo muito). Sendo breve, a personagem é demais e a atriz é excelente!

De forma geral, o filme é muito bom. Nunca li os quadrinhos da Mulher Maravilha nem acompanhei a série antiga de TV. Conheço a Princesa Diana de algumas histórias da DC como o excelente Reino do Amanhã, um dos meus gibis favoritos, e das séries de desenho da Liga da Justiça e dos Super Amigos. O filme deste ano, com certeza, despertou meu interesse pela personagem, como espero que tenha feito com muitas pessoas. Ela é uma heroína poderosa, que rivaliza com grandes heróis da mitologia das histórias em quadrinhos e que veio para ficar. Quero ver mais dela nas telas e nas páginas por aí.
