O motorista Bebê de Edgar Wright

Nós temos um novo filme de Edgar Wright saindo e é muito bom. “Em Ritmo de Fuga” é muito melhor do que o seu título traduzido, que nos faz pensar nas altas confusões da sessão da tarde. Baby Driver, o seu nome de “batismo”, é mais uma excelente película do diretor inglês.

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John Bernthal e Ansel Elgort em “Baby Driver”

Pessoalmente, conheço poucos filmes de Edgar Wright, mas o que conheço, gosto. Comecei a gostar mais ainda depois de assistir ao vídeo Edgar Wright – How to do Visual Comedy”do canal Every Frame a Painting no YouTube, que eu também recomendo muito aos amantes do cinema e que querem aprender a analisar aspectos cinematográficos com um pouco mais de profundidade. Acho uma boa ideia, inclusive, assistir o vídeo antes de ver o filme, para estar preparado para identificar e até mesmo aproveitar melhor os recursos usados pelo diretor.

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Jon Hamm e o diretor Edgar Wright

Digo, inicialmente que gostei do filme. O trailer prometia o melhor filme do ano, e a bilheteria inicial do filme pode contar uma história parecida, o que me deixou com altas expectativas. O filme é excelente, no entanto, essa promessa toda pode não ser real. Espere um bom filme, divertido e interessante, sem hipérboles.

O filme trata de um jovem piloto de fuga de assaltos, a quem todos chamam de Baby, B-A-B-Y, Baby. Ele é um excelente motorista, ele é uma boa pessoa (um dos poucos pontos que podem ser desinteressantes no filme, esse caráter de herói clássico em um personagem que é, de certa forma, um bandido) e ele tem um zunido no ouvido, proveniente de um acidente na infância, que faz com que ele esteja sempre ouvindo músicas, para evitar o desconforto do barulho. Com isso, a trilha sonora entra para a história como um recurso muito interessante.

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A música é um dos pontos fortes do filme.

Artistas como Simon e Garfunkel, Queen e The Beach Boys dão ao áudio do filme um toque especial, que fica mais especial com a edição do filme, que usa muito do recurso de casar batidas das cenas com o ritmo das músicas que Baby ouve em seu(s) iPod(s), como Wright faz com muitos de seus filmes. A edição, no geral, me agradou muito. Li críticas ao ritmo do filme, mas pessoalmente, eu gostei muito da montagem toda de Baby Driver.

As cenas de perseguição são muito boas. Elas chegam a beirar um Velozes e Furiosos (nos primeiros filmes, quando era um pouco menos absurdo), mas de uma maneira boa, mostrando a habilidade superior do motorista, com apenas pequenos exageros. O diretor, em entrevista no Late Night with Seth Meyers, diz que usou efeitos práticos (ao invés de efeitos especiais digitais) e que usou muito dos atores principais nas cenas (ao invés de dublês), o que traz um pouco mais dessa veracidade para a história.

Os atores também chamam a atenção. Kevin Spacey, Jon Hamm, Jamie Foxx, Lily James, Eiza Gonzáles e Jon Bernthal formam um belo elenco de apoio a Ansel Elgort. Até Flea, baixista da banda Red Hot Chilli Peppers aparece rapidamente no filme, no papel de um criminoso sem nariz. O elenco está bem, ao meu ver, mais um mérito para um bom diretor.

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Baby, Bats, Darling e Buddy, parte da gangue do filme.

Agora vamos a alguns spoilers.

A construção de Baby como personagem tem pontos fortes e fracos. Eu gosto muito do humor por trás dos seus diversos iPods e óculos escuros e acho que isso fica muito bem explicado no filme, faz sentido. Por outro lado, eu gostaria de ter compreendido um pouco mais sobre como ele virou um motorista tão bom e por que entrou para o mundo do crime. Há uma explicação na sua dívida com o mafioso Doc, mas acho que a motivação de criminoso do bem que o diretor coloca no personagem talvez o tivesse mantido fora da vida de crime desde o início.

Pode-se interpretar que ele virou para o lado da criminalidade por ter perdido os pais, mas isso não fica muito claro. Talvez fosse um clichê, mas talvez ficasse melhor descrito. O pai adotivo, no entanto, acho que foi um acréscimo à trama, acho que agregou positivamente e os diálogos entre ele e Baby são muito bons. Ainda sobre os pais, talvez o filme devesse deixar mais clara a questão quase “freudiana” da paixão de Baby por Debora.

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O casal do filme, que apesar de alguns problemas, mostrou uma boa química.

Sobre o casal, gostei muito do diálogo deles sobre músicas com o nome de cada um. Méritos para Wright, os diálogos do filme são muito bons. Acho que a identificação entre Debora e Baby é apenas pincelada, o que traz um estranhamento no final com a disposição dela em largar tudo por um jovem criminoso, uma vida “ruim”, mas estável e segura, por uma vida de fuga contando apenas com a segurança das habilidades do personagem principal atrás de um volante.

Tirando algumas dúvidas quanto às motivações dos personagens, achei o final muito bom. Gosto da “coragem” do diretor de colocar o personagem principal na cadeia e não em uma praia paradisíaca, tomando mojitos, e com o sorriso no rosto de quem conseguiu fugir. Acho que ele mostra de maneira leve o sofrimento de Baby (que descobrimos que se chama Miles, nome meio óbvio que ainda não sei se gosto ou se odeio) na espera que a vida de presidiário lhe impõe. A cena do julgamento mostra esse caráter de bom moço dele, mas ela é bem explicada durante o filme e nos faz acreditar e torcer para que a justiça realmente conceda a liberdade condicional, culminando no final feliz esperado. É um final feliz bem explicado, sem muita fantasia e por isso me agradou.

“Em Ritmo de Fuga” é um bom filme e eu recomendo que todos assistam. Só não recomendo a tradução, mas o resto é muito bom.

 

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