Copom era um homem por quem ninguém daria a sua vida. O Orkut ainda vivia seu apogeu quando a frase “você pode não ser ninguém no mundo, mas pode ser o mundo de alguém” ficou famosa, mas a exceção em Copom confirmava a regra. Tinha lá seus quarenta e seis anos à época desses acontecimentos e já lecionava com uma tranquilidade veterânica desde seu primeiro estágio docente. Não criava grandes problemas em seus ambientes, muito embora sua participação na resolução destes sempre fosse pouco percebida.
Justiça seja feita: Copom era um sujeito exemplar. Um marido propositivo, pai dedicado a duas meninas, adotadas quando já contavam quinze e onze anos de idade. Homem sincero, fiel, franco e simples. Precisamos conceder que, nunca tendo sido bonito sequer popular em qualquer círculo que frequentou, Copom passou pela vida praticamente sem deixar marcas. Não era, de fato, sua intenção sobremaneira: após uma criação abastada por um pai severamente dedicado à Igreja Católica, ele percebeu muito cedo que seus questionamentos sobre se há um sentido para a vida não seriam – nunca – respondidos, nem pelo Tenente Pompeia, nem por Deus, nem por ninguém.
Professor de matemática de um colégio na cidade de Porto Alegre, Copom também tinha paixões: noites de carteado com os colegas professores, literatura norueguesa e o Futebol Clube Santa Cruz, time de futebol da segunda divisão do campeonato gaúcho. Logicamente não era um aficcionado por esportes, mas por padrões: um dia, pesquisou seu nome no Google (quem nunca?) e descobriu em seu xará Marco Pompeia um ídolo histórico do clube, onde exerceu as funções de lateral-esquerdo, capitão, técnico e presidente – não ao mesmo tempo, claro.
Honestamente, Copom nem teria motivos ou interesses em ter sua vida exposta dessa forma. Mas foi justamente ele que, tendo dificuldade em romper sua rotina para buscar qualquer sonho ou evitar qualquer anseio, deu início a essa história.
Após uma tarde exaustivamente longa de maio, dilatada pelo tédio de corrigir as provas de seus quase cem alunos, Copom dirigiu para casa. Sendo terça-feira, o livre escravo de seu cotidiano passou no supermercado para comprar pipoca para a sessão de cinema com as filhas – Viviane tinha reuniões do clube do livro de que participava e exigiu programações “culturais” para a família em sua ausência.
Estacionou na garagem do prédio e, percorrendo o espaço aberto entre sua vaga e o elevador cheio de sacolas e pastas com provas corrigidas, não viveu tempo o suficiente para sentir a bala que atravessou seu crânio. A bala, que percorreu trinta e seis metros entre o cano da arma e o chão da garagem, era destinada a um homem chamado Paulo Carli.
