Certas coisas vem e vão e não parecem muito importantes na nossa vida. “Eu nunca usei a fórmula de Bhaskara depois que saí do colégio” é uma frase muito comum de se ouvir, não só sobre essa famigerada conta matemática, mas quanto a diversos outros assuntos.
X-é-igual-a-menos-b-mais-ou-menos-raiz-de-b-ao-quadrado-menos-quatro-a-vezes-c-dividido-por-dois-vezes-a.
Este é o clássico conhecimento que a gente decorou, mais até do que realmente aprendeu o porquê de ele existir. Eu inclusive tive que pesquisar no Google se o certo era Baskara ou Bhaskara.
Hoje eu sou administrador e publicitário e nunca usei meus conhecimentos de cadeias carbônicas, nunca usei a equação de Torricelli, a diferença entre artrópodes nunca fez diferença na minha vida e até mesmo conteúdos mais legais, como saber que as Guerras Médicas envolveram gregos e persas, não chegaram e serem “úteis” na minha vida. Mas vou dizer, apesar de não estar absolutamente errado dizer que esses conhecimentos não mudam a nossa vida, eu acho que está um pouco errado.
Ok, eu não usei esses conhecimentos profissionalmente, mas bem na boa, eu não uso um monte de coisa que eu aprendi na faculdade e lá era para eu ter visto coisas bem pontuais da minha profissão. Na pós graduação, que era para ser mais específica ainda, eu vi coisas que eu sei que não vou usar profissionalmente. Mas não é essa a questão. O ponto que me incomoda é a negação do conhecimento. Tudo bem se não vamos usar, mas vamos tentar aprender algo novo. Quem sabe, um dia, a lógica que construiu aquele aprendizado pode ser reutilizada, reaproveitada em algo novo. Talvez saber sobre o funcionamento do corpo de um animal ajude alguém a projetar um carro mais seguro ou algo do tipo.
Ou não vai usar aqueles conhecimento em anda, mas tu vai te encontrar com um biólogo especializado em formigas ou um matemático teórico e vai ter um mínimo de assunto com aquela pessoa. E aquela pessoa vai entender um pouquinho da tua profissão. Idealmente ele vai saber um pouco sobre a diferença entre publicidade e propaganda e vai puxar um papo comigo sobre isso e nós dois vamos seguir rumos diferentes sabendo um pouco mais sobre coisas que não vão ser úteis nas nossas profissões.
Além disso tudo, tem mais um fator importante. Já ouvi muita gente dizendo que acha que não temos maturidade para escolher o nosso futuro quando fazemos o vestibular, que é muito cedo para decidir se eu quero ser engenheiro mecânico ou bibliotecário naquela idade. A nossa preparação é o colégio, onde eles nos cansam com mil assuntos diferentes para que a gente se guie minimamente para uma profissão que não seja tão chata, nem tão distante dos nossos “talentos”. Outra menção rápida que quero fazer é que vestibular não é sentença, podemos mudar de curso no meio do caminho, fazer cursos novos ou até mesmo nos formarmos em uma área e trabalharmos em outra. Acho que essa barreira do alinhamento entre formação e profissão vai cair e vamos valorizar cada vez mais equipes interdisciplinares, pois elas são o caminho para inovarmos e criarmos coisas novas, mas isso é assunto para outro post.
Eu sempre odiei química e fico feliz em não ter me tornado químico. Fico mais feliz ainda que existam químicos para fazerem esse importante trabalho no meu lugar. E eles devem pensar o mesmo sobre o que eu faço. Existe um equilíbrio aqui. E mais uma coisa, tenho certeza que entender (um pouco) a lógica que guia a química – como as diversas outras matérias que tive ao longo da vida – vão me servir para construir outros conhecimentos. Não vamos negar conhecimento, vamos valorizar os que nos são apresentados e nos dedicar no aprendizado. Nem que seja só para nos tornarmos pessoas mais inteligentes e, por consequência, mais interessantes. Nem que seja só para passar na prova.

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