Hoje eu vou reclamar: Porto Alegre parece uma cidade sem problemas, de acordo com a atividade de alguns dos nossos vereadores. Em 2016 eu participei da terceira eleição municipal da minha vida, a segunda obrigatória e, tendo votado em 3 partidos diferentes, tenho plena consciência de que ainda não acertei. Ok, há de se considerar as opiniões políticas que mudaram entre meu terceiro ano do ensino médio e meu primeiro ano sem vincular-me a nenhuma instituição educacional. Enfim, vamos ao assunto.

No dia vinte e sete de Agosto de 2014, a Câmara Municipal aprovou, por 21 votos a 5, um projeto de lei que alterava o nome de uma rua na cidade. A Avenida Castelo Branco, doravante chamar-se-ia Avenida da Legalidade e da Democracia. O projeto, de autoria dos vereadores Pedro Ruas e Fernanda Melchionna (PSOL – já votei), utilizava como mote o cinquentenário do golpe militar de 1964, que trouxe à presidência da República ninguém mais, ninguém menos que Humberto de Alencar Castelo Branco. O novo nome vem em função da Campanha da Legalidade, promovida por Brizola em 1961 para garantir a posse de João Goulart, deposto pelo golpe. E lá vem a primeira reclamação.
Por mais que eu concorde com a premissa principal da retirada do nome (não fazer homenagens a ditadores), essa razão sucumbe frente a outras. A mais irrelevante: trocar o nome de uma rua por nome muito maior. Óbvio que seria reduzido, por que não prever isso? Outra pouco relevante, mas lógica é: tempo de adaptação a mapas e cultura popular. Vivemos isso. “Trânsito congestionado na Avenida da Legalidade e da Democracia, antiga Avenida Castelo Branco”.
As únicas razões que eu acho válidas são (1) ocupar mais uma vez a casa com um assunto que não beneficia diretamente a vida de ninguém – e que já tinha sido rejeitado – e (2) passar a impressão de que “não podemos falar sobre a ditadura”. Lá vou eu pra polêmica: para não repetir, não é melhor lembrar?
Aliás, nem só de Atos Institucionais foi esse governo. Condenando o golpe que ocorreu para que Castelo Branco fosse nomeado presidente, é desse mandato “golpista” que nasceram a Casa da Moeda, a Polícia Federal, o INSS, o Banco Central e a Zona Franca de Manaus. É suficiente? Não. Mas se transformarmos o assunto em tabu, não corremos o risco de deixar acontecer novamente? Na minha cabeça, quanto mais acharmos que os ditadores do regime militar eram inumanos, mais baixamos a guarda pra que aconteça de novo.

Então, aí mudou. Três anos se passaram e chegou 2017. Pouco tempo depois de as rádios se acostumarem com “Trânsito lento na Avenida da Legalidade”. Agora, a vereadora Mônica Leal (PP – já votei), junto com outros vereadores do partido e aliados, reverteu a decisão na justiça. Lembra que eu falei que foram 21 votos a 5? Então: o entendimento da época era de que só era necessária maioria simples entre os presentes, mas hoje está posto que deveria ser absoluta entre toda a Câmara. com 36 vereadores, concluímos que faltaram 3 “sim” para que, com 24 votos positivos, fosse legal a alteração. MAS POR FAVOR.
Pela terceira vez voltamos a esse assunto, cada vez de modo mais exaustivo. Mais uma vez, ao que parece, muita coisa vai mudar pra no fim voltarmos ao começo. Já que mudou, deixa assim! Na real, por mim a gente fecha em “Primeira Avenida” e ninguém mais se ofende com nada, nem aprende com nada. Desde que não briguem.

Li o texto ontem e fiquei um bom tempo pensando nisso. Acho que o argumento de “lembrar para aprender e não acontecer de novo” é valido, mas não pra esse caso. Os vereadores que querem manter o nome do ditador não pensam nisso, justamente o oposto, é saudade daquele tempo mesmo. Aliás, o PP tem uma coleção de saudosos da ditadura nos seus quadros.
Acho que se o objetivo é esse, façamos um museu demonstrando tudo que aconteceu, e não uma homenagem em nome de rua.
Ah, e só pra ser chato, a Casa da Moeda é de 1694, fundada ainda por Dom Pedro II.
Abraço!
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Pois então, acho que cabe muito a reparação! A Casa da Moeda é de 1694 mesmo, fundada por D. Pedro. Castelo Branco (cujo ministro da fazenda se chamava Octavio, hahah) em 1964 ordenou que a Casa produzisse o papel-moeda do Brasil, que antes era feito no exterior. Enfim, errei.
Embora concorde que não é rendendo homenagens a ditadores que se recorda os crimes que cometeram, acho que não era afronta à democracia o nome de uma rua. Na minha opinião, problema mesmo está em requerer o retorno ao nome – aí sim, a aceitação de que a ditadura militar é um período de saudosa memória. Mas a minha principal crítica é em quanto tempo muito bem pago nossos vereadores perderam nessa discussão?
Abraço!
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