Sexta-feira, pouco antes de começar a escrever minha última publicação, recebi um convite da minha namorada: no dia seguinte haveria o primeiro de dois dias do espetáculo “Uma Noite Dessas”, monólogo de 70 minutos da atriz global Deborah Secco. Meu primeiro pensamento, confesso, foi financeiro: fomos há pouco no jogo da seleção brasileira. Mas evento no começo do mês sempre pode, então nem interpus o recurso que poderia e estabeleci meu programa especial do final de semana.

Chegamos às 20:15 na AMRIGS no sábado, 45 minutos antes de o espetáculo começar, para que garantíssemos lugares confortáveis para assistir – o teatro não tem lugares marcados. Contou a nosso favor a noite agradável que cobriu Porto Alegre, pois a fila se estendia para fora do teatro em direção ao estacionamento. Essa foi a primeira vez na noite em que, olhando para a quantidade de gente à nossa frente na fila, me senti muito distante da atração; foi, também, a primeira vez em que, olhando para trás, mudei de ideia.
Em função de uma cadeira menos confortável e nossa privilegiada posição na fila, acabamos conseguindo um lugar excelente, bem em frente ao centro do palco, na quinta fileira do teatro que abriga até 700 bairristas. Os três toques da campainha vieram e o monólogo, de autoria de Hamilton Vaz Pereira, começou.
Muito diferente de tudo o que assisti até agora, a atriz me impressionou com o domínio do texto que apresentou. Os dois atos do espetáculo são bastante complexos, mas se pode ver que todos os personagens interpretados por Deborah tinham posturas, expressões, tons de voz e até vícios de linguagem ímpares. Tendo ela mostrado mais de 30 personagens – alguns infelizmente brevíssimos – surpreendeu mesmo o controle e o conhecimento do espaço cênico da sua obra.
Intercalando momentos em que ouvia opiniões de um público inaudível com pelo menos 3 interações bastante pessoais com a plateia, Deborah introduziu no espetáculo toda a maturidade e presenteou seu público com todo o potencial explorado de suas vastas capacidades artísticas. A complexidade da obra permite que, sem revelar nenhum detalhe específico, faça eu, abaixo, minha interpretação do significado dos atos componentes do monólogo:

No primeiro ato, Deborah reencontra todos os estudos e indecisões que compuseram cada um dos seus aceites em trabalhos como atriz. As dúvidas, as contradições, as dificuldades e, principalmente, todo o estudo que cada papel requer. Nesse momento, se impõe a força que permeia todos os contornos do seu trabalho: a vitalidade, o desprendimento, a irreverência e muitos mais traços que apoiam o sucesso de seus trabalhos na televisão e no teatro.
Começa o segundo ato e tudo isso fica pra trás. Importa agora, e a cada novo papel que é aceito, o desafio. Todo novo trabalho, ao primeiro olhar, é impossível. Um abismo intransponível, até que Deborah começa a correr. Ao pegar velocidade, os pontos de contato entre atriz e personagem começam a aparecer e, ao mesmo tempo em que o medo da crítica e do insucesso vão crescendo, mais e mais a dedicação e a certeza da incerteza a consolam e incentivam. Até o momento do salto, quando o público a vê, voar por sobre os penhascos, convicta e graciosamente tensa como uma bailarina enquanto ouve os aplausos.
Depois de Deborah se mostrar por inteiro no palco, ela ainda avisa que estará tirando fotos com aqueles que quiserem ao final do espetáculo. Quem fomos? Senti, pela segunda vez na noite, a mesma sensação: não estávamos exatamente próximos do começo da fila das fotos, mas olhando a fila que, atrás de nós, se estendia até a rua, percebi que nos posicionamos bem.

E que pessoa simpática! Mais do que posicionar, disparar e despedir, Deborah, perguntou a todos os que pude ouvir o que tinham achado do espetáculo. Ouviu os elogios, críticas e comentários com legítimo interesse. Enfim, recomendo a todos os meus conterrâneos que, caso Deborah traga mais uma vez seu espetáculo à maior cidade do mundo, assistam. Parabéns à atriz, seu produtor, o autor e todos os personagens, reais e fictícios, que compuseram essa obra de arte.
