Meu maior medo

O medo é uma droga. Viver com medo deve ser uma droga. A gente reclama muito disso e é uma verdade. Eu acho ruim o fato de ter medo de sair na rua – em certas ruas e em certos horários. Eu acho ruim o fato de ter ido para a Europa e ter sentido medo de estar na boa no metro e uma bomba explodir do meu lado. Porque, sim, não é só o Brasil que assusta. Inclusive, tem muito mais medo espalhado por aí, do que por aqui, no meu quarto, bebendo uma água geladinha, com roupas limpas e com cheirinho de Comfort amaciante concentrado lírio branco e bergamota 500 ml.

E o medo vai além da violência. Como falamos muito de cultura pop por aqui, penso em histórias de terror. Eu comprei há um tempo o livro O Exorcista, de William Peter Blatty, e é um dos melhores livros que eu já li. Digo isso porque é uma história que desperta fortes emoções no leitor, mexe conosco. Me fez perceber, inclusive, como uma casa vazia faz barulho enquanto a gente lê. Por outro lado, ainda não tive a “coragem” de assistir o filme, que é um clássico.

O Exorcista 1973
Pelo bem de todos, vou usar uma imagem que não vai assombrar ninguém hoje à noite.

Recentemente o filme It – A Coisa entrou em cartaz. A película é um remake do filme It – Uma obra prima do medo (1990), baseado no livro de Stephen King. Não vi, nem li nenhum, mas estou bem curioso para assistir, dado o hype, as críticas e a bilheteria que a nova versão vem recebendo. Sei que no filme uma criatura assume a forma daquilo que nos dá mais medo (alô J.K. Rowling e o bicho-papão de Harry Potter, estamos de olho). Palhaços, como o apresentado na história, seriam a forma assumida pelo monstro para muita gente.

Para mim, a forma seria outra. E aqui vou fazer uma coisa que não deveria: revelar meus medos. Digo isso porque sei que tenho amigos que podem se valer dessa informação para me sacanear no futuro. Não tenho nenhuma fobia, no sentido verdadeiro da palavra. Não consigo pensar em nada que me assusta a ponto de me tirar da racionalidade, mas duas coisas que me assustam nessa vida são aranhas e manequins. Acho que aranhas todos podemos concordar que são as enviadas de Satanás na terra e que esse é um medo, relativamente, fundado. Afinal, elas são venenosas e podem até matar (curiosamente, cobras poderiam causar medo pelos mesmos motivos, mas não tenho problema nenhum com elas). Manequins eu não tenho muita explicação, mas eles me incomodam muito.

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Esses parecem até os monstros do Eu Sou a Lenda

Mas tem uma coisa que me causa mais medo do que tudo isso, de verdade: intolerância. Pode parecer um discurso pronto, mas eu morro de medo disso. Me explico, a partir de uma pequena introdução. Recentemente, como muitos tem acompanhado, o Santander Cultural, em Porto Alegre, lançou uma exposição chamada Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, com obras que discutem expresões de gênero e diferenças com um olhar artístico. Por ser provocativa e até mesmo transgressora (como a arte deve ser), gerou polêmica especialmente após a pressão gerada por grupos religiosos e políticos, o que resultou no final antecipado do período da mostra.

Dito isso, voltamos ao meu medo. Entendo que algumas obras podem ser ofensivas para algumas pessoas, mas cancelar a exposição por isso é um absurdo. O discurso moralista apresentado é o discurso do passado, retrato de um país que dá passos largos em direção à intolerância com as diferenças. Nesse ritmo, tiramos a voz da classe artística e queremos tirar o queer da sociedade, marginalizá-lo novamente, justo agora que essas questões estão sendo finalmente discutidas e gradualmente aceitas – em um trote seguro de algumas pessoas, mesmo que ao lado do preconceito galopante de outras.

queermuseu
Uma das imagens mais polêmicas da exposição, segundo veículos da mídia

Se algo não te representa, não dá teu apoio. Tu não precisa ir ver algo que te ofende. Idealmente, vai lá e te informa. Lê o quadradinho branco que tem do lado das obras do museu e vê se consegue compreender o porquê daquilo ter sido feito, qual a crítica envolvida e forma tua opinião. Não gostou, critica. Mas não impede que outras pessoas formem as opiniões delas. E aí está o meu medo. O medo de que esses grupos, que querem castrar tudo aquilo não segue a agenda deles, se fortaleçam. Brecht, nesse momento, talvez dissesse:

Primeiro levaram uma exposição, mas eu não me importei com isso. Não sou artista.

Hoje foi uma exposição, amanhã é um museu, depois sabe-se lá o que pode ser. Não à censura. Tenho mais medo do poder da intolerância e do preconceito do que da violência no Brasil. Tenho medo das pessoas que querem aplicar a sua moral ao mundo, que preferem a segregação ao diálogo, a imposição ao pensamento crítico, o passado ao futuro. Mais do que aranhas. Mais do que manequins. Temo que Millôr Fernandes estivesse certo quando disse: “o Brasil tem um enorme passado pela frente. Ou um enorme futuro por detrás”.

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