Resenha: Rua dos Amores – Djavan (2012)

Eu sou um homem apaixonado. Não que eu seja lá muito intenso e expansivo nas minhas declarações de amor – acho aliás que não são do gosto da minha namorada mesmo – mas em geral músicas românticas me tocam especialmente graças a esse relacionamento que me completa há alguns bons anos.

Digo isso porque algumas das músicas que mais descrevem o meu ser apaixonado estão no CD “Rua dos Amores” de Djavan. Esse homem faz coisas com um violão que eu suspeito que sejam, literalmente, massagens no meu ouvido.

beneficios-da-batata
Que homem! [Crédito: Tomás Rangel]

Agora, infelizmente, um acontecimento triste: quando “Rua dos Amores – Ao Vivo” foi lançado, no ano seguinte, Djavan sofreu pesadas críticas sobre seu posicionamento contra biografias não autorizadas. O próprio cantor disse à repórter Giuliana de Toledo que, nesse caso das biografias, “teve alto teor de racismo e ressentimento”, logo após dizer que é “um homem negro e um negro não foi feito para fazer ninguém pensar, para produzir influência”.

Enfim, voltando ao CD original, de 2012, estamos falando de 13 músicas que, em 57 minutos, pervadem a nossa consciência. Djavan fez um álbum riquíssimo, colocando suas novas composições numa ordem que permite que as músicas se substituam no nosso desejo de ouvi-las: tem aquela música que se gosta de cara, como “Pecado”, aquela que cresce conforme o ouvido se acostuma, como “Quinze Anos” e aquela que, acho que será assim pra sempre, deixa dúvidas sobre como tal som foi traduzido em notas, como a faixa que dá título à obra, “Rua dos Amores”. Me permito, assim como o próprio Djavan fez à época, fazer um breve comentário sobre cada faixa.

beneficios-da-batata
Off-topic: como foi difícil PARAR de escrever sobre esse CD.
  • 1. Já Não Somos Dois

O álbum já começa com uma batida parecida com jazz e as primeiras duas palavras (das várias) que Djavan me apresentou: azoou (perturbou, atordoou) e vau (ponto de onde se pode atravessar a pé uma corrente de água). Já Não Somos Dois é a música sobre alguém que acreditava estar em sintonia com seu par – e que, meio do nada, está sozinho. A tristeza da decepção amorosa revestida da confiança na recuperação. Findo o relacionamento, segue o amor lírico.

Não sei desanimar, te quero night and day, sei do que faço jus!

Sem saber mergulhar, ou mesmo nadar, águas que atravessei.

Tudo aquilo que foi enfrentado para a construção e manutenção de um amor que não vinga, que não se revela recíproco. Todos os questionamentos que não foram feitos e pensamentos lógicos deixados pra trás. Afinal, a desconfiança, semente nativa do coração humano, só germina bem à vontade na solidão.

  • 2. Anjo de Vitrô

Em outra casa dessa Rua dos Amores, Djavan conta outro causo: aquele relacionamento que, de assalto, sobe a outros patamares. Me acende a ideia de um casal juvenil, que vive a ansiedade dos prazeres da carne e – como toda alma adolescente – faz disso uma transcendência. Mas era só a chuva que caía.

Da margem escura a luz a devenir

Será seu rosto imaculado a refugir?

Anjo de Vitrô não se compra, se ganha. Não se vende, se dá, se doa. Nesse espírito também os amantes se têm por darem a si mesmos; uma tímida, assustada. Outro deslumbrado. Os metais ensaiam o voo que alçam os amantes nessa música.

  • 3. Triste é o Cara

Essa faixa é um alerta: quem não morre de amor nenhuma vez, morre sem ter vivido realmente. Uma exaltação à busca desse amor retratada pelo efeito de uma vida sem ele. Apaixonar-se é abrir mão de si e triste é o cara que, frente a esse abismo, não se joga.

Um destino tão banal, uma vida igual
Concedeu, arregou, sob o pânico da dor.

Que besteira, tudo é beira na mangueira
E nego vive de amor.

Se a música canta que amar é solução, é porque apesar desse sujeito acreditar que o amor é entrave, a realidade – que posso comprovar – é que tem coisas nessa vida que só a sensação de amar e ser amado resolve. Verdadeiramente, quem nada perdeu até hoje não se achou.

  • 4. Acerto de Contas

Eis que Djavan nos apresenta um sambinha bem bom nessa quarta faixa. É uma dor da perda, realçada pela autocrítica do apaixonado que quer mudar, que sabe que errou, que precisa se explicar e promete que as coisas serão melhores.

Outra madrugada já passou e você nem lô, devastando a cidade.

O verde da mata é outra cor ao sentir que estou lhe perdendo

À perspectiva do amor perdido,  o amante compositor de samba sorri e exagera suas atitudes e emoções: só fiz coisas tontas e, nesse acerto de contas, quem paga é o meu coração. A música conota em mim um sentimento daquele relacionamento que sempre vive por um fio, embora sempre resista.

  • 5. Bangalô

Nem todo amor dura, nem todo amor dá certo. Nessa matéria, amor se dá ao mesmo tempo que se dói. Se um relacionamento que vive cansa, o que morre cansa mais fundo. Eu nem sei se quero amar outra vez, o amante pensa, dolorido.

Com tanto a lamentar nada perdi

Sem você, sem você, sem você.

Mas a música é, ainda que nesse blues lento e carinhoso, um manifesto de independência. Na vida o amor é um negócio: se ganha, se investe, se perde. O coração, nessa bolsa de valores, cansa. Mas não vamos ficar vencidos de bar em bar. Bola pra frente, sem amor a vida segue também.

  • 6. Pecado

Que som! Já começa com os sopros a mil – e eu adoro. Pelo que vi, era a música que costumava abrir os shows da turnê e não é por acaso. É vibrante, contagiante, dá vontade de levantar e cantar alto, junto.

E a bem dizer: insatisfaz

No entanto mulher mais querida está pra nascer!

Tudo que faz um amor terminar é pequeno, e tudo que é pequeno é sintoma de algo intransponível. Nesses detalhes, mesmo que o amor avance, perde-se em nuance quase um Chile inteiro. Que pecado!

  • 7. Ares Sutis

Essa música me lembra uma toada latina, com uma letra quase epistemológica. A insegurança permeia toda a música, ao ponto de se questionar quem somos, por que estamos aqui e o quanto preciso me consumir pra ter um pouco de ti.

Quanto mais eu sou, menos sou o que sei.

E pra o que nasci, será que cumprirei?

Esse questionamento filosófico desvela um sentimento muito comum, que se apresenta ativamente em relacionamentos mais abusivos: preciso mesmo usar esses sapatos tão peculiares para te agradar? E a música termina quase trágica na minha opinião, pois percebe que, quanto mais o “eu” vive, mais aprende sobre quem deve ser para esse “tu” e mais vive para esquecer quem se deve ser para si, violentando até mesmo seus ares mais sutis.

  • 8. Quinze Anos

Um amor é um tesouro. Quinze Anos é uma música que, de cara, não me agradou, até passava ela quando ouvia o CD no Spotify. Até que algo estalou na minha cabeça e eu chorei ouvindo. Amar é estar feliz por amar – um amor correspondido é quase tudo o que se há de querer na Terra.

Pra vida inteira seguir sua voz, acolher-me aos pés e adorar quem sou…

Bendizer aos céus por querido ser e viver de amor!

Djavan compôs essa música em homenagem a esse amor que dá certo, que perdura e que não para de crescer. Duas vidas enredadas de bem-querer. Pensada como homenagem à união do Djavan com a Rafa, sua esposa, Quinze Anos é mais do que isso: o que estabeleceu você e eu não se dilui.

  • 9. Vive

Vive é uma canção delicada sobre aquele amor que pode ir com calma. Para se degustar, tranquilamente, e não para se embebedar. Minha vida é sua como o marinheiro é do mar, mas desencana, meu amor.

Tanto que eu sonhei nos amar à pleno vapor

Tanto que eu quis fazê-la estrela da sagração de um ser feliz.

Essa música vive na expectativa de um amor que talvez não possa se desenhar nesse momento, mas que perdurará, imutável e congelado até que se possa cumprir. Uma delícia de ouvir – e você pode conferir também, a versão no disco da Maria Bethânia.

  • 10. Pode Esquecer

Essa é uma música patriótica, nada me faz pensar o contrário. E sim, eu e o Brasil, o Djavan e o Brasil, tu e o Brasil, são 200 milhões de histórias de amor. No país que é cantado, vida só há de ter quem a dividir e não se pode ir além nas costas de ninguém.

E tudo se liquefaz num mar de candura.

Se alguém tiver que arbitrar, só vai poder contar com o delírio de um cantor

O que se passou, passou: prescreveu!

Djavan escolheu gravar essa canção de maneira intimista, apenas voz e dois violões, porque cuidar do nosso lugar é simples. Por amor, como for, vai. Ah, Brasil, nossa história poderia ter esse tom romântico…

  • 11. Reverberou

Mais uma canção que evoca a juvenilidade do amor. Em que cada decisão é o mover de montanhas e as batidas do coração reverberam o corpo todo. Outro samba, conduzido dessa vez por uma guitarra que toca com uma delicadeza. A surpresa com o aceite, com a retribuição.

E por ser ela a luz que me renasce, no instante em que eu a enlaçar,

Socorro! Posso pirar com o calor do corpo dela.

Nesse momento, todo amor é pra sempre e sempre tem algo, alguém ou algum que nos tira a certeza. Quero te chamar pra dançar, mas tenho medo. Se você me sorri, meu corpo reverbera. Nem sei se é assim que o amor nasce, mas já estou correspondido.

  • 12. Quase Perdida

Fui correspondido! Eu já estava conformado, mas tudo bem! Enfim, não pude crer: você me ligou! Ah, que euforia! Essa música é a história do amante que muda sua vida por esse amor. Não se precisa entender, não se precisa censurar. Se for pra ter sem pagar a mais, deixa estar: isso já dá!

Sendo assim, não será demais

Se eu disser que a amarei por todas as vidas!

Ninguém duvida que será tão bom viver do seu batom. É mais um Jazz do Djavan que prega a “discórdia, nunca mais”. Seja em Madrid, ou Murici, viverei declamando que agora é só amor e paz!

  • 13. Rua dos Amores

Sim, uma música pode ser tão curta se for tão boa. tão curta e tão sensacional que a letra inteira foi citada. Não tem o que deixar de lado, a mensagem é simples e breve: a lua é grande e charmosa, mas até ela, nessa Rua dos Amores, se desdobra e se recolhe frente a tudo: você.

Vê! O horizonte despe a lua; a rua se amontoa pra ver e a nua nem taí pra o que faz

Ver você assim descendo a rua, a lua, logo, passa a saber quem é tudo

Quando encontra você!

Se é simples a letra, tanto complexa é a melodia: ao ouvir a melodia, não se imagina que alguém a possa cantar; ao ouvir a letra, Djavan a interpreta tão maravilhosamente que não há como transcrever tal melodia numa guitarra. Na Rua dos Amores, é sempre noite de lua cheia.

Enfim, é um dos melhores álbuns que eu tive a chance de ouvir na vida. Recomendo a todo mundo, a qualquer momento, com qualquer humor. O álbum, como um todo, é muitíssimo bem construído e eu sou uma pessoa um pouco mais feliz hoje por compartilhar minha admiração por esse som e esse cara.

Um comentário em “Resenha: Rua dos Amores – Djavan (2012)

Adicione o seu

Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑