O show de horrores do ENEM

Semana de ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio – é sempre a mesma coisa: polêmica e humor de caráter duvidoso. Todo ano é a mesma coisa. Recentemente entrei em um portal de notícias e eles tinham até uma seção especial para o Exame, comentando diversos aspectos relativos à prova. Isso é um reflexo do tamanho que a coisa toda assumiu, com tantos escândalos e afins. Não vejo o mesmo auê, por exemplo, pelo ENADE (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes, aplicado a estudantes de graduação). Entendo que a “importância” dos dois é diferente, mas a maior diferença aparente entre eles é o ~espetáculo~ que cada um gera.

Um fato que faz muito sentido: ninguém falava sobre o assunto quando o ENEM não valia “nada”. E esse “nada” merece umas aspas, porque não valia nada para quem fazia. Lembro que quando eu estava no ensino médio, no meu colégio, comentaram “faz o ENEM quem quer, não precisa fazer”. E não precisava, não ia afetar a minha entrada na universidade. Quem fez, fez para praticar para o vestibular talvez. Lembro que havia uma coisa no ar de ajudar o colégio a ficar com uma nota boa, ajudar a mostrar como era bom (ou não). Hoje olho para trás e acho que deveria ter feito a prova. Acho que seria legal se todos tivessem que fazer, seria uma forma de motivar os alunos a estudar mais e colocaria um peso maior na ponta que a própria escola segura, pois haveria um impacto direto na avaliação dela como instituição de ensino.

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A prova tem suas peculiaridades

Mas não era o caso, pelo menos não naquele ano. No ano seguinte à minha saída do colégio, o ENEM começou a tomar uma importância maior, virou uma forma nacional e unificada de medir desempenho e, principalmente, uma entrada no ensino superior. E, com isso, a maluquice toda que vivemos hoje. Nos primeiros anos a polêmica eram as pessoas que tinham o gabarito, que achavam uma maneira de colar. Junto, as pessoas que cometiam pequenas gafes que anulavam as provas. Isso sem falar nos absurdos escritos em provas, que já eram comuns em programas de humor (sendo verdade ou não). Em seguida, junto com o zeitgeist-millenial-líquido-conectado, as pessoas que tinham as provas anuladas por tirarem selfies dentro das salas de prova. Mas até aí eram peixes pequenos no picadeiro da sociedade do espetáculo.

O nosso pequeno freakshow anual tem dois pontos que me impactam mais: os atrasados e o tema da redação. Os atrasados do ENEM são um show à parte. Viram memes e, nos últimos anos, existe até camarote para assistir os portões fecharem. Estamos desenvolvendo um sadismo (por falta de palavra melhor) que me preocupa. Qual o grande prazer que tiramos de ver essas pessoas sofrendo e se dando mal? E todo ano é a mesma discussão:

– Deveriam ter chegado mais cedo. Não sabem que é um dia importante?

– Mas tu não sabe o que essa pessoa passou! E se ela mora longe e tem que pegar mil conduções, depende do transporte público… E se a pessoa trabalha?

As razões são milhares, desde os desorganizados, até os que se atrasam por motivos alheios à vontade de cada um. E aí dois erros, o primeiro que é colocar todas as pessoas em um mesmo saco e achar que o atraso é só por motivo de desorganização ou despreparo; o segundo é usar essa suposta posição de superioridade (uma mentalidade de “eu me organizaria melhor”) como uma justificativa para esse prazer apoiado no sofrimento alheio. E é sofrimento, sim. Pessoas estudam, perdem tempo e se dedicam para a prova. Elas “perdem” o ano se perdem a prova – uma visão que também não deve ser encarada assim, não se perde o ano, apenas uma oportunidade.

O tema da redação é o outro assunto que queria comentar. Não o tema em si deste ano ou de anos anteriores, mas sim a discussão sobre anular provas por conta de ataques aos direitos humanos. É uma questão delicada. Sempre há o argumento da liberdade de expressão. Temos esse direito. Mas até onde vai a minha liberdade de expressão e onde começa o discurso de ódio? É uma linha tênue.

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O caos no portão

A questão dos direitos humanos sofre um problema sério: como a nossa política de hoje em dia, virou rivalidade de futebol. Pessoas atacam direitos conquistados (tal qual a liberdade de expressão…) como uma forma de estabelecer uma posição política. Acredito que seja isso, pois tenho dificuldade de entender esse comportamento. De qualquer forma, é uma discussão complicada. Por um lado, cada um se expressa como quer, defende o seu ponto de vista na sua redação. Por outro lado, ao tomar uma medida que impede que provas sejam anuladas por ferirem os direitos humanos, o que eu entendo é um recado que diz “isso é aceitável”.

Obviamente existem discussões diferentes. Eu sou contra a pena de morte, me posiciono a favor desta cláusula pétrea da Constituição brasileira. Ao mesmo tempo, sou contra a proibição das drogas, que também está prevista em lei. Então, podemos discutir o que é lei? Acredito que sim, algumas leis deveriam ser mudadas. Outras não. E se em uma redação uma pessoa defende a segregação racial? Ou a violência contra minorias? “Mas é a opinião da pessoa”, talvez alguém diga. Mas para isso eu digo não. Não sou juiz nem nada, mas defendo que esse seja um posicionamento inaceitável. Talvez exista um quê de hipocrisia no meu discurso, mas é a minha opinião. Se quiserem, podem dar zero para este post.

Existe um problema de subjetividade do avaliador. Sou meio cético e não confio muito nas pessoas. Não sei se confio no julgamento de certas pessoas, que poderiam anular uma prova injustamente. Mas também, são as regras do jogo. Provas vão ser anuladas justa e injustamente. Não sei como resolver esse problema. Mas desrespeitar os direitos humanos em uma redação tem como resolver: anulando a prova. Acho um problema mais sério, inclusive, do que chegar atrasado.

 

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