Somos livres (parte 2)?

Há poucos dias, numa das infinitas conversas que travamos, eu e o Marcelo entramos novamente no assunto levantado no post Somos livres (parte 1)?. Num dos parágrafos do texto anterior, surge o exemplo do processo eleitoral e a ilusão que temos de democracia, a sensação descabida de que escolhemos nossos líderes e representantes de maneira livre e desimpedida. A palavra mágica lá apareceu e agora vou me focar nela: dinheiro. Somos compráveis?

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Publicação da página do Conselho Nacional de Justiça no Facebook.

Fiz uma brevíssima pesquisa no Twitter e chego à mesma conclusão que nossas discussões nos levaram dias atrás: não sabemos. Mas longe de ser atalho para o fim de uma discussão, essa resposta é meio de caminho entre várias condições para nosso mercantilismo moral e outros tantos frutos e consequências de ambas as respostas definitivas.

Primeiro, há alguns pré-requisitos para considerarmos, algo como as Condições Naturais de Temperatura e Pressão emocionais: em geral, pessoas absolutamente felizes não parecem tender a romper sua moralidade – até porque essa atitude, pelo que eu entendo, sempre é tomada pela aceitação de uma promessa de satisfação momentânea. Exemplo: colar (ou passar cola) numa prova é imoral, mas pessoas fazem isso pela satisfação momentânea de não tirar notas baixas (ou ajudar um amigo). Outra situação a priori é que o elemento surpresa é muito agressivo, ou seja, se alguém ouve uma humilhação e decide responder imediatamente, acho que o mais provável é uma agressão (que é mais que um comportamento imoral), enquanto uma noite de sono pode transformá-la em uma reação mais ponderada (como a denúncia de difamação ou injúria).

Circunstâncias opostas também influenciam, claro. Acredito que qualquer um teria o ímpeto de romper limites de velocidade e avançar por sinais fechados caso seu emprego dependa disso (infelicidade) ou a vida de um ente querido esteja em risco (imprevisibilidade). Encerrando o rol de influências externas, a amizade também tem poder. Somos mais flexíveis com nossas decisões e negociações internas quando o pedido vem de um amigo.

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“Você é meu melhor amigo, eu não deveria ter que pedir pra você mentir por mim”

Enfim, sem mais premissas para o momento. Consideremos agora uma situação de decisão moral no sentido que previmos: uma pessoa me oferece benefícios em troca de uma ou mais atitudes que, destoando de minha forma de levar a vida, não tomaria naturalmente. O que eu faria? Diria que não? Estipularia um preço? Pediria um aumento ou faria uma contraproposta? Nesse ponto é que chego no fatídico “não sei”. E não só porque “cada caso é um caso” ou “não quero parecer fácil”. É por que essa proposta é imaginária.

Aqui, do computador do meu quarto em casa, posso dizer que dinheiro nenhum no mundo me faria quebrar meus princípios. Inventemos uma situação hipotética qualquer: um político porto-alegrense qualquer me oferece dinheiro para ir a uma manifestação pelo passe escolar gratuito. Não me entendam mal, isso não seria o meu processo natural porque eu não gosto de manifestação, multidão, essas coisas.

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Mas é fácil dizer “não” pra isso, porque eu simplesmente não quero. Agora, de quanto estamos falando? Isso vai fazer mal a alguém? Quanto eu cobro pra participar de uma decisão que eu não entendo bem? É fácil dizer que nunca faria, mas só porque ninguém me propôs ainda. Digamos 20 mil reais. Isso são meses do meu trabalho, por uma tarde fazendo algo que não gosto. Quanta coisa que eu não gosto (i.e. lavar talheres) eu já fui obrigado a fazer sem ganhar nada? Não é desproporcional receber essa grana toda para desperdiçar tão pouco do meu tempo?

Óbvio, cada vez que eu releio o que acabo de escrever, eu penso “primeiro, isso nunca vai acontecer. segundo, eu não aceitaria, não conseguiria dormir à noite depois de quebrar meus princípios”. Mas de novo, me ponho em dúvida: digo isso porque sei da minha idoneidade ou estou só resolvendo agradavelmente um problema que, com o esforço da reflexão, me levaria a um resultado inconveniente? Acho que um bom resumo pra esse assunto da nossa liberdade (que continua, questão prenhe de questões) é que toda vez que pegamos um atalho argumentativo (“eu nunca faria isso”), estamos só afastando o risco de uma penosa reflexão, sem resolver a questão que a própria argumentação suscita.

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