Dilemas do passageiro de aplicativo

Eu acho o Uber (e afins) uma grande ideia! Eu também já estou muito cansado daquele slide de Powerpoint que diz “a maior empresa de transporte não tem um carro, sequer”, mas não deixa de ser uma verdade. Os caras conseguiram resolver um problemão de transporte, barateando as corridas, trazendo um pouco mais de transparência e confiança e, ainda por cima, melhoraram serviços tipo-táxi. Mas a coisa não é perfeita.

Lembro que logo que o Uber chegou foi aquela loucura, pessoas querendo baixar o app, chamar corridas, beber água oferecida pelo motorista e escolher a música que ia tocar no carro. Eram os tempos de ouro dos aplicativos de carro particular – pena que não posso dizer anos de ouro. E isso vale para os passageiros e para os motoristas. Em corridas que fiz recentemente já ouvi comentários que naquela época quem estava prestando esse serviço ganhou muito dinheiro (muita procura, pouca oferta).

A ilusão de que aquilo duraria para sempre era deliciosa. Que maravilha! Mas aí coisa começou a degringolar. Entraram outros players no mercado e no início eu lembro até de pensar “quem vocês pensam que são tentando roubar o lugar do meu querido (e recente) Uber”. Cabify era o principal concorrente e eu não curti muito quando ele entrou. Depois me acostumei. Quando o 99Pop chegou no mercado, acho que já estava aceitando melhor que haveria concorrência e que isso era uma coisa boa. Pelo menos para o passageiro, já que eles ficariam brigando por preço e isso seria bom para o meu bolso. O problema é que talvez não seja bom para o motorista -uma discussão que ainda quero abordar futuramente.

E aí eu não sei o que aconteceu. De uns tempos para cá, o Uber começou a não se preocupar mais com o passageiro, com o conforto na corrida – com as próprias “regras” do aplicativo, na verdade. Aquele “quer uma água?” começou a ficar menos recorrente – hoje nem sei se ainda é obrigação de tanto tempo que eu não ouço alguém oferecer. Já senti que não poderia mais escolher a rádio (o que, na verdade, eu nunca fiz, porque acho meio exagero… acho que nem A Hora do Brasil eu não pediria para trocar). Mas, do alto do meu trono de classe média, acho que a coisa que mais me incomoda são as janelas abertas. É uma mistura de “foda-se” com “eu preciso economizar” e que independente do calor ou da segurança acho que mostra um pouco de descaso com o passageiro, justamente por parecer uma violação das próprias regras da empresa.

Com isso, comecei a migrar mais e mais para o Cabify. Acho que o atendimento segue com maior qualidade e parece que os motoristas são mais atenciosos. Além disso, não tem preço dinâmico e o pessoal vive compartilhando código de desconto. Aí hoje eu geralmente chamo Cabify e só peço Uber ou 99Pop quando não tem motoristas no primeiro.

Em meio a toda essa introdução, o estopim que me inspirou a escrever este texto foi um motorista que chamei em um destes aplicativos (não vou citar qual). Ele chegou para me buscar, entrei no carro e começamos a corrida. Ele falava muito alto, parecia que não estava em condições normais (de temperatura e pressão. Mas até aí, ok. É meio incomôdo, mas não chega a ser um problema. O problema começou com o assunto que ele veio me contando. Me contou mais de uma situação em que foi trabalhar como motorista após ter consumido bebidas alcoólicas, me contou de vezes em que andou acima do limite de velocidade dentro da cidade (120km/h foi o número que ele me deu), de vezes em que foi trabalhar privado de sono (trabalhou na madrugada, dormiu 1h30 e voltou para o volante).

Enquanto ele me contava os feitos que tinha realizado, eu ria nervosamente e comentava “é… tem que cuidar isso aí…”. Talvez ele achasse que ia me impressionar com essas histórias, que ia mostrar como era “bom de braço” no trânsito, como era machão (mais um ponto que temos que tratar aqui futuramente: essa cultura Macho Man, que basicamente dita que um bom homem é um escrot*). Ou talvez fosse tudo verdade. Não desci do carro no meio do caminho pois ele não cometeu nenhuma infração enquanto estava comigo. Comigo, dirigiu com calma e seguindo todas as normas. Cheguei no meu destino com calma, dentro do tempo estipulado e sem problema algum. E aí começaram os meus dilemas.

Primeiro: dou uma lição de moral? Digo para ele que aquele comportamento é inaceitável? Por um lado, talvez fosse a atitude mais cidadã, com ele e com as outras pessoas, motoristas e passageiros. Por outro lado, não vai ser o meu discurso de bom-moço que vai fazer ele mudar um comportamento que parece ser sistemático e eu evito de bater de frente com ele. Confesso que fiquei um pouco assustado com a conversa toda e não me senti seguro de entrar nessa rota de colisão.

É meu dever ficar educando as pessoas?! Acho que o melhor que posso fazer é me valer do recurso do próprio aplicativo para fazer uma reclamação. Não sei até que ponto isso é realmente efetivo. Vários motoristas dizem que é, mas não tenho nenhuma prova. Com a queda na qualidade do serviço, não duvido que isso também tenha caído. Mas será que é suficiente? Reclamar e esperar alguém ver e talvez acreditar (porque também acho que não dá pra acreditar em tudo que as pessoas dizem).

Eu não tenho o hábito de reclamar dos motoristas ou de dar notas ruins. Até em corridas ruins, em que o motorista não mostra muitos skills sociais e no volante. É o trabalho dele e sempre tive um pouco de pena de dar notas ruins e prejudicá-lo. Não conheço ele. Sei lá se ele precisa daquilo, se foi só comigo, se é um dia ruim. Também ninguém nunca foi tão ruim a ponto de que eu me ofendesse ou que me ameaçasse a segurança. Mas esse último mudou isso. Ele não me ameaçou a segurança, mas acenou com a possibilidade de fazer isso com outras pessoas. Aí a minha “pena” com trabalho dele já não é a mesma. O que também não quer dizer que eu não me compadeça da situação dele (me comentou alguns problemas familiares durante a viagem, não vou ficar repetindo, mas ele é uma pessoa que já passou e passa por alguns dramas).

Essa corrida me fez pensar muito. Ainda não sei o que fazer, nem se estou fazendo um tremendo furacão em um copo d’água com isso, mas foi algo que me fez realmente refletir. Será que entro em contato com a empresa e reporto o que aconteceu? Ou me limito à critica dentro do próprio app? Aceito sugestões. Acho que a discussão é válida. Tem uma opinião, me conta. E segue o baile.

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