Está aí uma coisa que eu posso riscar da minha lista de coisas para fazer antes de morrer: tocar em um show de música em um grande teatro na minha cidade. Anteriormente eu já tinha tocado para alguns ouvintes em churrascos caseiros, festinhas na casa de amigos e até mesmo em um bar. Para mim, é uma grande coisa, visto que não sou músico de profissão.
Resolvi escrever sobre isso por três motivos: o primeiro é para me gabar, o segundo para me explicar e o terceiro é para fazer algumas análises do que eu vi por lá. Bom, primeiro “uhuuuul, sou um rockstar“. Feito, vamos adiante. Por me explicar quero tratar do fato de que não convidei ninguém para o show, exceto meus pais e minha namorada. Eles contratualmente tem que me acompanhar em certas furadas, que era como eu estava vendo esse grande marco na minha trajetória.
Mais explicações. Comecei a fazer aula de teclado esse ano (porque acho música uma das coisas mais legais do mundo), logo, ainda não sou super bom. Como era meu primeiro show, por padrão da escola, iria tocar apenas uma canção (pessoas com mais tempo de casa e experiência tocam mais músicas). Toquei o acompanhamento de Somewhere Only We Know, do grupo inglês Keane – que eu só descobri que era uma banda e não uma pessoa pesquisando para o show. Admito, estava bem nervoso. Sofri um pouco para pegar o jeito de tocar. Meu professor sugeriu que eu fizesse uma versão simplificada da partitura, mas, orgulhoso que sou, tomaria aquilo como uma derrota pessoal e pratiquei bastante até aperfeiçoar a música. Aí duas características minhas, uma boa e uma ruim: perseverança e orgulho.
De qualquer forma, ainda não estava bem seguro. Era a primeira vez. Portanto não convidei ninguém. Até para minha família achei que seria chato. No fim, estava errado. Foi um experiência incrível acompanhar e prestigiar todos aqueles wannabes de músicos, cada um com seu jeito. Acho que isso é super importante. Agradeço também o apoio e as palmas de todos que foram lá para ver outras pessoas, mas que respeitosamente me ouviram e aplaudiram, tendo gostado ou não. Que besteira a minha de pensar que pensei, mas acho que me deixou mais confiante na hora. E tem mais um motivo.
Conversando com o @ottofarias, comentei com ele que sou o tipo de pessoa que dá muito mais valor para o dia a dia do que para eventos ou datas comemorativas. Sou o tipo de pessoa que prefere e valoriza muito mais um amigo que vai na minha casa tocar e cantar comigo do que um que vai no ~meu~ show. Tive muito prazer em tocar no teatro para diversas pessoas, mas gosto MUITO de receber amigos em casa e tocar violão, teclado, ukulele, pandeiro, tambor, escaleta, ocarina, flauta, ou um dos milhares de instrumentos que tenho em casa. Acho que esses são os momentos de real felicidade. E dá pra pegar o valor do ingresso em comprar em cerveja + carne.
Por fim, algumas análises “etnográficas” que fiz por lá, do palco aos camarins. É engraçado como cada pessoa encara esse tipo de coisa. Se apresentar para dezenas de pessoas, falar em púbico, mostrar um trabalho para apreciação (e julgamento) dos outros. Curioso como algumas pessoas se sentem super a vontade e outras se fecham absolutamente. Toquei com um menino de uns 10 anos que era só nervosismo antes da nossa música e só orgulho e “gabação” depois de tocar. Vi pessoas gritando, pessoas comendo para se distrair do que estava por vir, pessoas se afastando do mundo, mesmo sem sair do lugar.
Por que fazemos isso? Por que essa preocupação com validação? Eu entendo, porque eu estava nervoso, eu iria me culpar se fosse mal, tanto pelos meus pais e namorada que foram me ver, quanto pelos pais e namoradas (e afins) dos meus colegas de banda, que gostariam e mereceriam ver um bom show. Mas era um show de calouros, de amadores. Todos entenderia se houvesse um problema.
Vi diversas pessoas incorporarem músicos, rockstars. Achei isso super divertido. Até mesmo os mais tímidos, junto com a camiseta do show (uniforme obrigatório), colocaram calças de couro com rebites no cinto, calças jeans rasgadas. Mesmo os tímidos vestiram essa armadura antes de ir para a guerra. Fiquei orgulhoso. Vi uma menina que ia tocar AC/DC na guitarra toda arrumada de forma a não deixar nenhum roqueiro desapontado. Ela ficou afinando a sua guitarra por uns 20 minutos. Quem toca sabe: dá para fazer isso em muito menos tempo. Era uma forma de se manter ocupada. Imagino que tenha levado um tempo se arrumando, como forma de tirar o foco da performance, de não pensar no desafio por vir.
O show veio e ela, eu e todo mundo fizemos nossa parte. Acho que todos estão de parabéns. Mas mais importante que isso, espero que todos tenham se divertido. Tentei forçar alguns sorrisos no palco, busquei curtir o momento, por mim e pelos outros. Vi que não foi uma atitude assumida por muitos. Acho que fui um dos únicos a fazer uma reverência ao público em agradecimento pelas palmas. Muitos terminaram de tocar e acho que ficaram felizes apenas por poder ir embora.
Se o nervosismo bater, encaremos. Quando as batalhas acabarem, perdidas ou vencidas, mostremos a nossa cara, aceitemos os resultados do nosso trabalho. E vamos tentar curtir um pouco as pequenas coisas. Não vamos deixar o samba morrer, vamos deixar o show continuar. E vamos nos divertir um pouco, que quem canta (ou toca), os males espanta.

Deixe um comentário