Eu adoro ganhar presentes mas, toda a vez que eu ganho um, me deparo com uma situação com a qual eu ainda não sei lidar: como reagir ao presente. Parece simples e pode ser o tipo de coisa que a pessoa que dá o presente nem se preocupa ou pensa nisso, mas toda a vez isso me incomoda um pouco.
A verdade é que eu não sou o tipo de pessoa que vibra muito com as coisas. Não significa que eu não curta elas ou que elas não tenham impacto, é só uma questão de jeito. Aí a situação é a seguinte: a pessoa me dá aquele presente super legal (ou não) e por dentro minha reação é sempre a mesma, uma coisa meio “opa… que legal…”. Às vezes, eu amo o que eu ganhei ou simplesmente o fato de ter ganhado algo já me deixa realmente feliz. Só não consigo naturalmente mostrar o quanto aquilo me deixou contente. Como eu gosto de presentes, quando alguém me dá algo que não é muito do meu agrado, eu também tenho a mesma reação, porque fico feliz só de a pessoa ter pensado em mim e se dado o trabalho. E aí minha reação novamente é “opa… que legal…”.
E isso faz eu me sentir meio culpado. Me sinto na obrigação de vibrar com os presentes, mas não é o meu jeito de encarar as coisas. E aí, o que gente faz? Finge vibrar? Aceita normalmente e explica para a pessoa “olha, eu gostei muito, mas não vou vibrar com isso, ok?”. Acho que não, né. Para mim, vai caso a caso. Certas vezes dou uma forçada na comemoração. Não encaro como falsidade da minha parte, mas sim como uma forma de tentar agradar a pessoa que me presenteou, é quase uma forma de dar outro presente de volta. É o tipo de coisa que é só para o outro.
Só quando uma pessoa me conheçe muito bem e já sabe desse meu jeito que eu lido naturalmente com a coisa toda. Porque aí talvez fique muito forçado e tenho medo de que me peguem no meio da minha atuação. E isso tudo é para evitar aquele constrangimento de quando a pessoa diz “tu não gostou” que vem seguido de uma exclamação, uma interrogação e reticências, tudo ao mesmo tempo, mesmo que na grande maioria da vezes não seja o caso. Mas aí para tirar essa ideia da cabeça da pessoa é muito difícil.

E aí minha teoria sobre como comprar presentes para as pessoas entra na parada. De uns tempos para cá, comecei a pensar sobre isso, sobre qual a moral de dar presentes. Em um mundo homeostático, eu compro um presente para cada um dos meus amigos e todos eles compram presentes para mim nas mesmas datas (aniversários, formaturas, casamentos e por aí vai), logo, podemos matematicamente colocar isso numa equação e vamos cortando os iguais em cada lado. No final, faria mais sentido ninguém se dar presente e a gente pegar o dinheiro e gastar consigo mesmo, certo? Errado. Porque essa conta não leva em consideração um fator importante, que são os pesos dados a cada coisa.
O valor em si de um presente é o de menos. Isso porque quando alguém nos dá algo, ela agrega um valor a ele que nós jamais conseguiríamos sozinhos. Um livro não vai ter o mesmo valor se fui eu que comprei ou se eu ganhei de presente, especialmente se ele tem, por exemplo, uma dedicatória. Eu tenho em casa livros repetidos que ganhei de amigos e que não troquei porque as duas cópias tem valor para mim, pois representam uma coisa muito legal. Outro dia desses estava fazendo uma limpa no meu armário e quase coloquei fora um livro que ganhei de aniversário há uns seis, sete anos atrás, que eu nunca li. Não é um assunto que me interessa e eu tenho certeza que nunca vou ler. Mas tinha uma dedicatória. Além de tudo, nem é de uma pessoa que seja tão minha amiga, inclusive é uma pessoa que é mais um conhecido do que qualquer outra coisa. Mas guardei por conta desse valor extra.
E isso vale para tudo. Eu curto muito olhar algumas coisas e lembrar das pessoas que lembraram de mim, seja no meu aniversário ou seja apenas um dia qualquer em que elas viram algo e compraram para me dar porque pensaram que eu ia gostar. Já vou avisando: eu gostei. E assim que nós devemos presentear pessoas, buscando agregar a algo talvez banal um valor especial, que faz a pessoa lembrar de nós e que nós lembramos dela.
Sendo um cara de classe média, dificilmente alguém vai me dar alguma coisa que eu não possa comprar; tanto porque se for barato eu tenho condições de adquirir, quanto pelo fato de que poucas pessoas (salvo parentes e amigos muito antigos, acredito) vão me dar algo realmente caro que eu não tenho como ter. Por isso, eu acredito que não se trata de dinheiro. Mesmo que seja um presente caro ou barato. O melhor presente é aquele que a gente olha com carinho depois, que lembra da pessoa toda a vez que vê ele na estante, no armário, em casa. E eu tento fazer esse exercício, de agradecer mentalmente por todos os presentes que ganhei e de abrir um sorriso toda a vez que me deparo com algo que uma pessoa – especial ou não – me deu.
E esse é o real valor dos presentes, na minha visão. O sentimento que nos dá ao vermos algo que lembra um momento e uma pessoa e nos faz trazer, do fundo do coração, aquele sentimento de “opa… que legal…”.

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