Supérfluo: padrão da moralidade cristã.

O ano litúrgico, que acompanha o ano civil, entrou semana passada no que chamam de Advento: são os quatro domingos que antecedem o Natal e são, para os cristãos, momento de espera e esperança, expectativa alegre pelo nascimento de seu salvador – e prenúncio da volta do crucificado, para julgar os vivos e os mortos.

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Ontem foi o segundo domingo. [Fonte: Correio Gramadense]

Mas esse é um tempo de reflexão também sobre nossas atitudes no ano; o que fizemos certo, errado, a mais ou a menos. Especificamente sobre os “a mais” e “a menos” existe um pressuposto que gostaria de questionar e debater: seriam os cristãos pessoas piores que os pagãos?

Ok, todos à bordo!

Vivendo há muitos anos no ambiente da Igreja, tive a chance de ver dezenas de pessoas – crianças, jovens, adultos e idosos – se envolverem com as questões da fé e suas implicações. Logicamente, vi boa parte dessas pessoas desistirem a seu tempo, mais cedo ou mais tarde, e um motivo recorrente que sempre me intrigava era o fato de “logo vocês, os cristãos, são os que mais difamam, fofocam, pecam”. E grande parte dessa crítica, pasmem (ou não) é verdade. Os cristãos difamam e fofocam e pecam, só não tenho certeza se são os mais recorrentes.

A verdade é óbvia. Em certa medida, todos nós mentimos, omitimos, tomamos atitudes e decisões das quais nos arrependemos – e isso se torna probabilisticamente natural se pensarmos quantas decisões tomamos por dia (a começar pelo sofrimento diário do despertador).

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Só mais ___ minutinhos…

Digamos que, razoavelmente, os cristãos não sejam pessoas piores que os pagãos. Mas teria fundamento uma crítica que diga que os cristãos deveriam ser melhores? Vejamos. Ou melhor, tentemos responder com outras perguntas: um cristão fervoroso pode passar mais de uma hora por dia na academia? Um seminarista pode ir em balada? Um padre pode ir ao jogo de seu time toda semana no estádio? Se respondemos “não” a qualquer uma dessas questões, estamos colocando uma linha de mesura acima da que colocamos em alguém que não professa nenhuma fé abertamente. Nenhuma dessas coisas constitui pecado imediato, ainda que pareça. Sob essa ótica, parece que os cristãos precisam ser pessoas “comuns”, apenas decididas a expor sua fé – e isso está certo! Entretanto, a crítica tem razão: os cristãos precisam, efetivamente, ser melhores.

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*só eu não entendi?*

A questão é que Jesus disse, no sermão da montanha – conhecido por ser o manual de instruções da vida cristã – a seguinte frase: “Sede, portanto, perfeitos, como o vosso Pai no céu é perfeito” (Mt 5, 48). Mas isso é absolutamente impossível, pois só Deus é perfeito, dirão uns. Com razão, é verdade: não é possível que sejamos perfeitos, nenhum de nós é – desculpa, Gisele Bündchen. Estaria o próprio Jesus dizendo que não somos capazes de atender às suas expectativas?

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NOPE!

Claro, o que Jesus está deixando claro é que, por nós mesmos, não seremos perfeitos nem alcançaremos o céu – mas isso fica pra outro dia. O ponto importante está alguns versículos antes, e essa citação faz mais sentido ainda à luz da anterior: “se a vossa virtude não sobrepujar a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no reino dos céus” (Mt 5, 20). A justiça do mundo é, para o cristão, insuficiente. O padrão moral para o cristão está ainda adiante à justiça do mundo! Isso não quer dizer que este tem mais proibições, quer dizer que tem a obrigação de, em tudo o que faz, buscar ser perfeito – mesmo que já esteja sendo justo.

Isso é o que, na tradução grega da bíblia, se chama perisseuma, ou seja, “supérfluo”. Não cabe ao cristão ser bondoso na medida do suficiente. Precisa transbordar bondade. O próprio Jesus dá a tônica da atitude: em certa ocasião da Bíblia, diz-se que Jesus multiplicou 5 pães e 2 peixes para satisfazer 5 mil homens (mais mulheres e crianças). Diz o Evangelho de João que, ao recolher os restos, encheram 12 cestos. Não é de se pensar que Jesus, Filho de Deus, Aquele que tudo sabe, errou a mão na quantidade da multiplicação? Seria um milagre descuidado? Claro que não: o excedente é a medida do milagre. A busca cristã pela perfeição se mostra no excesso de suas boas obras. Então sim, o cristão não só tem obrigação de ser melhor: tem obrigação de ser sempre melhor que a si mesmo.

E isso é bem difícil. A compensação da fé, por outro lado, é a felicidade eterna. Pra mim já vale seguir tentando, falhando e tentando mais.

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