Hoje vamos emparelhar a balança do Despressurizando e falar um pouco sobre o Grêmio, depois do @ottofarias ter falado sobre Inter nos textos “O Grêmio Tinha Razão” e “Desabafo sobre a série B“. Aqui temos pressão e despressurização dos dois lados desse nosso Rio Grande.
Esse ano foi ótimo (futebolisticamente). Ano passado também. O mundo dá voltas, a roda da fortuna gira, um ciclo se completa e o outro começa. Os anos 70 foram do Inter, os 80 do Grêmio, os 90 também foram tricolores, os anos 2000 foram do Inter e a segunda década do novo milênio vão ser nossos. Não sei por que essas coisas acontecem, se são casualidades ou energias cósmicas, mas como diria Chicó em O Auto da Compadecida: “Só sei que foi assim”.
Esperamos e esperamos, mas depois da nossa festa de debutante, fomos apresentados à sociedade e agora vamos mostrar nossa maturidade e a que viemos. Ano passado ganhamos a Copa do Brasil, nos classificando para a Copa Libertadores deste ano. Nos lançamos como o Rei de Copas por uma característica individual de ser brigador, crescer no mata-mata, mas que é, na verdade, o recurso que nos resta frente aos clubes do eixo Rio-São Paulo, que levam maior vantagem no formato de pontos corridos.

É curioso o efeito que o futebol tem na gente. Eu acho que andei meio dormente, me desacostumei com os títulos, com a grandeza. E olha que o Grêmio não vinha mal. Depois do rebaixamento, tivemos bons resultados na principal competição do futebol nacional. Nos últimos 12 campeonatos brasileiros, ficamos duas vezes na segunda colocação, três vezes na terceira, duas na quarta, quatro vezes entre a quinta e a décima posição e o pior desempenho que tivemos foi um 12º lugar em 2011. Isso sem contar 4 semifinais da Copa do Brasil, uma semifinal e uma final de Libertadores no mesmo período de tempo. Batemos na trave, mas trave não dá título, não dá comemoração.
Realmente parecia que a gente tinha esquecido o gostinho da vitória. Talvez por isso o efeito agora seja tão grande, tão emocionante. Estávamos com esse grito entalado na garganta, pronto para explodir. E ele veio. A Libertadores deste ano começou com um grupo fácil, o que nos deu uma certa tranquilidade. Coisas boas poderiam vir. Já no mata-mata fiquei mais preocupado… havíamos caído algumas vezes nas oitavas e o nervosismo começou. Passamos do Godoy Cruz e pegamos o Botafogo. A preocupação ficou um pouco maior, estávamos mais perto do nosso objetivo.
Botafogo vinha bem, apesar de ser o Botafogo (desculpas aos torcedores, mas é a verdade). Vencemos o desafio e pegamos o Barcelona de Guayaquil, que havia derrubado diversos times brasileiros no processo de chegar à semifinal. O nervoso foi maior antes do primeiro jogo. Já nele a pressão do grito de campeão começava a sair aos poucos. Vencemos de 3X0 o primeiro jogo… LÁ. Nesse momento, meu pai me falou: “podemos ser campeões com uma derrota, uma vitória e um empate, aproveitamento de 44%”. Quando perdemos o segundo jogo, pensamos “está tudo dentro do esperado, agora uma vitória e um empate”.

A primeira vitória veio na Arena. Jogo cheio de gente, esperança e preocupação no ar. Lanús era argentino, mas não era um time de grande tradição como o Boca ou River, mas por outro lado, vinha de uma campanha excelente. Bom pra ganhar, mas bom para se deixar levar pelo nome e perder na final também. Foi pegado, pênaltis não dados e tal, mas o gol do Cícero deu uma acalmada. Deu? Que nada! River tinha feito a mesma coisa E saído ganhando o segundo jogo. Logo o River, argentino de tradição. Mas fomos para o segundo jogo. O empate era o que estava “planejado”. E quem diria que os deuses do futebol tinham outra vitória guardada para nós?!
Gritei. Muito! Aí saiu pela garganta tudo que estava lá nos últimos 15 anos. Com juros e correções. Teve gritaria, teve cerveja, teve Goethe cheia. Que alegria, que sensação boa! E acho que a Libertadores era o campeonato que nós gremistas estávamos mais investidos emocionalmente. Pelo peso, porque era difícil, porque, se somos o Rei de Copas, queremos mais que o Brasil. Fiquei feliz de ver o meu time dando show e jogando o seu jogo. Grêmio manteve a calma e fez o que veio o ano inteiro fazendo. Jogou o seu futebol, que ouso dizer que é o melhor do Brasil, melhor que outros campeões do ano, inclusive.
Lutamos por três títulos esse ano, com chances reais. Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil. O Mundial foi uma consequência. Mas aí fomos para Abu Dhabi. Engraçado que o maior medo era o jogo da semifinal, não podemos negar. A corneta seria muito forte. E foi um jogo muito pegado com Pachuca. Acho que partidas de mundial geralmente são bem disputadas, apenas uns poucos jogos foram goleada. Acredito que seja porque os times se conhecem pouco, entram receosos e resolvem fazer um feijão com arroz, baseado na qualidade que provavelmente já tem e que os levou até lá. Ou, quando pegam grandes times europeus e resolvem se fechar por preocupação.
Passamos do Pachuca, mas não sem sufoco. Cortez jogou muito e salvou o Grêmio de dois ataques dentro da área. Para mim, foi como se tivesse marcado dois gols. Mas quem balançou a rede foi o nosso Cebolinha, Éverton, eleito o melhor da partida – injustamente, ao meu ver. E aí tínhamos o Real Madrid pela frente. O gigante! O time que já seria uma seleção mundial se não contasse com o melhor jogador do mundo: Cristiano Ronaldo.

Gremistas de todas as partes já temiam esse desafio entre Davi e Golias. Eu estava muito tranquilo com a possível derrota até ver o Al Jazira de Romarinho fazer o gigante sangrar. Mesmo com a pressão constante, era possível. Não sei se isso foi pior ou melhor, mas nos deu esperança. O Grêmio era um time melhor que o adversário dos merengues na semifinal. Tenho que agradecer ao time árabe, pois colocou outro peso na partida, um novo sopro de energia e fez com a partida fosse muito mais intrigante.
No fim das contas, na vida real, nem sempre a Cinderela fica com o príncipe e nem sempre Davi vence Golias. O Grêmio lutou muito, mas o esperado aconteceu e o Real Madrid achou um gol, dos pés do grande CR7. Levamos pressão, como poucas vezes na vida. Mas honestamente estou orgulhoso do meu time, especialmente do setor defensivo do meu time. Seguramos os ímpetos de monstros do futebol. Perdemos, mas de cabeça erguida. Jogamos por um erro do adversário, como muitos sulamericanos que vencem seus adversários europeus e, no fim, quem perdeu por um erro fomos nós. Eles jogaram o jogo deles, mas venceram a vitória que nós esperávamos. Um gol achado na qualidade, no brilhantismo e, não pode-se negar, na sorte de Cristiano Ronaldo.

Pode ter faltado ao Grêmio um pouco mais no ataque, por exemplo. Mas de forma geral, estou orgulhoso do meu time. E mais ainda: fico mais esperançoso. Diversas peças desse elenco maravilhoso vão continuar, como a nossa zaga, que eu não poderia sonhar com uma melhor. Esse nosso time tem qualidades que eu vou lembrar para sempre. Já me imagino relembrando este ano de 2017 no futuro, talvez contanto para um filho ou filha como era lindo ver Kannemann e Geromel jogando na defesa, como Marcelo Grohe, Milagrohe, nos salvou esse ano, como nos divertimos apostando nos gols de Jael (o cruel).
Como diria a propaganda, great times are coming para o tricolor gaúcho. Acho que podemos seguir como fizemos nos anos 90. Ganhamos uma Copa do Brasil, seguido por uma Libertadores, um Campeonato Brasileiro e mais uma Copa do Brasil. Um título por ano em quatro anos seguidos. Metade já foi, mas agora queremos mais. Títulos são como uma fome insaciável, temos um prazer com eles, mas nunca estaremos de barriga cheia deles.

Por fim, com toda essa luta, fica a pergunta: acabamos com o planeta? Alguns podem dizer que não – e não literalmente, por sorte. Mas eu diria que sim. Acho que isso vai entrar para o nosso imaginário como o próprio Grêmio ao se chamar de Imortal. Imortal, no nosso dicionário não significa aquele que não morre, mas sim o estado de espírito em que o nosso time nos coloca. É uma forma de representar o que sentimos, um sentimento que não se acaba pelo time, seja contra os gigantes do mundial, seja contra nossos conterrâneos no Gauchão. Não se tratam de vitórias, mas sim de torcer, se emocionar pelo Grêmio e com os gremistas. Seguimos imortais e que 2018 nos aguarde, porque nós vamos acabar com o planeta.

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