A Forma da Água e os monstros de del Toro (sem spoilers)

Guillermo del Toro, como ele mesmo disse ao receber o Globo de Ouro de melhor diretor, tem uma paixão por monstros. Vemos em sua filmografia uma série de filmes com criaturas bizarras, como Hellboy, Pacific Rim, até mesmo a trilogia O Hobbit (em que ele não dirige, apenas é um dos escritores) e, talvez o seu mais notório trabalho, O Labirinto do Fauno (2006), vencedor de diversos prêmios, incluindo três Oscars.

O diretor mexicano Guillermo del Toro. Fonte: Collider.

A Forma da Água (um nome bem traduzido do original The Shape of Water) é um filme lindo que traz uma beleza ímpar, tanto visualmente (algo já esperado, creio eu, de um filme de del Toro), quanto na parte dos significados, dos símbolos, dos signos apresentados. Tudo que o diretor nos mostra é importante para a trama, tudo tem um propósito dentro da história. Acho que o filme foi muito bem escrito nesse aspecto; ele não perde tempo e, tal qual em Tchekhov e sua arma, se vemos algo em um momento, isso terá uma razão futura.

A trilha sonora do filme – também premiada – é o toque que nos leva direto para os Estados Unidos da guerra fria. A construção da época também é muito interessante, uma vez que mostra os medos e os preconceitos presentes nas vidas das pessoas, o que torna a história muito atual, de certa forma. Acredito que todas as motivações tem uma justificativa, calcada justamente nisso dentro da trama. Talvez os personagens sejam um pouco unidimensionais levando em consideração que o esqueleto da história é relativamente “batido” (preste atenção no texto da primeira cena do filme), mas defendo que há mais méritos no roteiro do que qualquer outra coisa e até mesmo acredito que isso seja proposital. A história é um conto de fadas, na verdade. Mesmo que um pouco bizarro para os padrões esperados. As inovações, por assim dizer, estão presentes em outros aspectos que não vou comentar agora para não dar spoilers.

Vale destacar as atuações do núcleo principal de atores. Sally Hawkins, no papel de Elisa Esposito, está muito bem, especialmente se considerarmos que ela interpreta uma mulher muda, o que com certeza é uma dificuldade para um ator ou atriz. Octavia Spencer e Richard Jenkins dão o suporte à atriz principal, mas destaco o papel do ator Michael Shannon, vilão da história, que nos faz odiar o seu personagem com tanta força que isso só pode ser uma prova do bom trabalho que ele realiza (juntamente, é claro, com roteiro e direção).

Sally Hawkins no papel da faxineira Elisa Esposito. Fonte: Digital Trends.

Doug Jones também está no filme e convence no papel do improvável homem anfíbio. Este ator é quase um Andy Serkis, no sentido de que já possui experiência e fluência em interpretar personagens não humanos, se valendo de efeitos visuais e práticos (como maquiagem). Ele possui uma postura e movimentos que nos fazem acreditar naquela criatura, ou monstro, mesmo sem conhecer a real mitologia dela. Ele já havia interpretado Abe Sapiens sob a batuta de del Toro em Hellboy e devo admitir que os dois seres são visualmente muito semelhantes.

monstro da forma da agua
A criatura, interpretada por Doug Jones. Fonte: Omelete.

 

De forma geral, acredito que é um bom filme e um filme que cresce à medida que “digerimos” ele. Saí do cinema gostando cada vez mais da história. É um filme que tem notas boas também, mas que chama atenção pelo desempenho frente aos críticos. O Metacritic do filme está em 86/100 e o Rotten Tomatoes em 92%, mas a nota da audiência neste mesmo site está em 78%, nota esta que se repete no IMDb (7,8/10). Acredito que é um filme que Guillermo del Toro teve liberdade para soltar sua criatividade e nos apresenta uma belíssima história e um belíssimo monstro.

 

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