Breve conto de dia dos namorados.

Quando Roberto conheceu Marie, ele já não acreditava que conheceria mais pessoas relevantes; já tinha alguns amigos e estava noivo de sua vizinha de porta, por quem nutria imenso carinho desde os tenros anos de sua infância. Acontece que, assim como no Guaíba, o curso dos dias também surpreende.

Robi era assistente financeiro numa agência boutique de Porto Alegre e cuidava, principalmente, dos contratos firmados entre a dona da agência (e sua chefe), Dona Lia, e algumas imobiliárias que contavam com seus serviços mercadológicos. Durante a primavera, e depois de perder o diretor de arte sênior para um concorrente, Dona Lia resolve inovar e contrata uma jovem artista, fazendo-a adiar seus planos de vida acadêmica. Sim, Marie. Ela é delicada e se importa com todos, até mesmo com, claro, o pessoal da área financeira e contábil.

Depois de muitos encontros involuntários na sala de descanso, eles percebem o quanto têm em comum – e Robi vê quão diferente é de Jo, sua noiva. Ambos são competentes no papel que cumprem e concordam sobre os rumos e desafios da empresa. Depois, se interessam pelos mesmos esportes, tipos de filme, música, literatura e, com algumas ressalvas, opinião política. Passam a almoçar juntos, com outros colegas que compartilham – ou não – da mesma opinião e, junto com esse novo grupo de amigos inesperados por Robi, passam a sair pra beber com namoradas e namorados algumas vezes por mês.

Chega o verão e, na festa de final de ano da empresa, Robi já sabe: está apaixonado por Marie. E toma a atitude de contar a ela sobre como se sente, inclusive a tristeza inerente em relação ao casamento que se avizinha. Marie, estupefata, só consegue dizer uma frase antes de sair de passo apressado:

Não posso ter essa conversa com um homem comprometido.

Devastados os dois, vão logo embora da festa, separadamente. Por um mês, evitaram a sala de descanso, os almoços e os happy hours. No final de janeiro, Robi passa três horas na sala de descanso, até que Marie chega.

Eu te amo. Terminei com a Jo e estou pronto para nós.

Ao que Marie prontamente responde:

Eu nunca disse que te amava.

E todas as renúncias que fiz para que estivéssemos juntos? E as noites em claro, indeciso sobre o que fazer? E a Jo, cujo coração foi despedaçado? E agora, o que será do meu próprio? Os pensamentos de Robi vieram todos ao mesmo tempo, as palavras se amontoando nas bochechas, de forma que, ao abrir a boca, nada saía. Marie diz que sente pelo fim do noivado e que precisa voltar ao trabalho.

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