Resenha: Índice Médio de Felicidade – David Machado

Era uma vez um casal de amigos meus que se preparava para uma mudança drástica em sua vida: sairiam do Brasil para prosperarem em terras luzitanas. Conscientemente ou não, alguns meses antes da dolorosa partida, que já deixava saudades, me presentearam com um livro português, munido de um título que, imediatamente, abriu asas na minha imaginação.

Índice Médio de Felicidade é uma obra de ficção escrita por David Machado, vencedora do Prêmio de Literatura da União Europeia de 2015. Contada em primeira pessoa, a história se passa na Lisboa contemporânea, com um ambiente contaminado por uma crise trabalhista que assola a todos os envolvidos na história. Acho que já escrevi aqui, mas costumo dizer que tenho restrições às histórias em primeira pessoa. Já não vou dizer mais, com base em dois livros que mudaram minha opinião; “Mindhunter” e este que escrevo sobre. Vou comentar alguns aspectos da obra que não considero spoilers, ainda que falem sobre acontecimentos pontuais do livro.

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O livro conta a história de Daniel, 30 anos, dois filhos, uma esposa e nenhum emprego. Na verdade, ele é um solitário e está contando os acontecimentos recentes para Almodôvar, que está preso por roubo – efeito da crise. Marta, a esposa, acaba levando os filhos para outra cidade enquanto Daniel ainda seguia procurando emprego na capital. A história passa muito por Xavier, amigo de ambos que está recluso em casa há mais de 12 anos, e pelo Ávila, antigo professor da escola onde os três amigos estudaram. Os filhos de Daniel (Flor e Mateus) e, mais enfaticamente o filho de Almodôvar, Vasco, e sua adolescência conturbada também se tornam preocupações adjacentes à história. Existem, portanto, 3 pontos centrais do livro que o tornam inesquecível:

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1. A Teoria:

Um dia, numa visita ao Xavier, Daniel vê muitas planilhas sobre sua mesa, com gráficos e tabelas riscadas. Ao questioná-lo sobre os papeis, Xavier apresenta a tônica do livro: a teoria do “Índice Médio de Felicidade”. De acordo com ela, podemos analisar nossa vida atual, nossas inseguranças, medos, conquistas, vantagens, habilidades et cetera para estabelecermos, numa escala de 0 a 10, o quão felizes somos, ou nosso “Índice Individual de Felicidade”. Depois, ao olharmos para o mundo, devemos procurar países que tenham índice semelhante ao seu – ou seja, países em que a felicidade média combine com a nossa. Partindo desse pressuposto, haveria um sentimento de adequação da sua felicidade à do país, responsável por um acréscimo espontâneo da felicidade individual. Esse acréscimo ocasionaria uma nova mudança a um país compatível e, dessa forma, as felicidades estariam em contínua melhoria, na medida da intensidade de seus avanços e retrocessos.

Essa lógica permeia os títulos dos capítulos, pois, instigado pelo amigo, Daniel passa os dias avaliando o peso de cada mudança em sua vida e o valor que deve ser adicionado ou subtraído de seu coeficiente de felicidade. Quantas vezes também eu, lendo o livro, questionei meu índice, meus parâmetros, o impacto de cada coisa…

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2. O “Plano”:

Daniel não tinha um plano para sua vida, tinha “O Plano”. O Plano havia sido construído em seu caderno desde muito tempo antes dos acontecimentos do livro e, quando as coisas começam a dar errado – em seu emprego, sua família, sua vida – ele passa a se questionar em que parte o Plano falhara, o que ele não previra. De certo modo, o Plano continha tudo aquilo que Daniel não queria passar pela vida sem viver, mas ele mesmo se dá conta de que os mistérios dessa nossa jornada são insondáveis e não há como se preparar.

Em alguns momentos do livro, ele retoma a discussão do Plano: reajusta, readapta, retoma. O Plano é, mais de uma vez, fiador da garra e da força de vontade do personagem. Daniel usa o Plano de maneira muito madura pois, ao invés de usá-lo retroativamente, avaliando conquistas e derrotas, ele o usa proativamente, como um GPS que o orienta a, partindo de onde está, reorientar sua vida na direção certa.

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3. O site:

Almodôvar, Xavier e Daniel tiveram, tempos antes dos eventos contados no livro, uma ideia inovadora: desenhar um site em que pessoas se dispunham, gratuita e voluntariamente, a ajudar umas às outras em várias situações. Simples assim. O problema é que a comunidade lisboeta não pareceu absorver completamente a ideia e os benefícios da ajuda bem-intencionada e incondicional – o site fracassa incrivelmente.

Não seria um grande problema, pois os custos não eram muito altos, mas a proposta desse site remonta a outra grande temática tratada: não existe condição mínima para ajudar. Tal lei é uma que assumo para mim como os amigos assumiram para si. Até mesmo Xavier, o depressivo, enfrenta seus medos para ajudar ao outro.

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De maneira geral, o livro é espetacular! Os pensamentos são sempre coerentes e há uma dose cavalar de humanismo e força de vontade nas decisões de Daniel. A obra apresenta muito mais histórias, conflitos e dilemas tão mais profundos que em 10 páginas qualquer um já entende os estrangeirismos inerentes da nossa língua mãe, como gajo, puto, sobrolho, pequeno almoço, et cetera.

Recomendo o livro a todos que o queiram ler e, claro, tenho ele bem colocado na minha estante. Nota 9,5 pelas 10 páginas em que os termos luzitanos ainda não estão quentes, hehe.

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