Resenha: O Gigante Enterrado – Kazuo Ishiguro

Não teve vídeo, nem stories no Instagram, muito menos fotos publicadas no Facebook com a legenda “tá pago!”. Não, nada disso aconteceu, mas sim, posso confirmar que estou fazendo academia (“ginástica”, como a Ana prefere chamar). Não publiquei nada e provavelmente não falarei mais sobre o assunto porque não confiei na minha perseverança – então esqueçam fotos de “antes e depois” também. Aliás, só estou sequer mencionando esse fato irrelevante porque ele me permitiu ter uma hora marcada com a leitura e retomar o hábito diário de ler. Durante o aquecimento na esteira e enquanto faço os exercícios de perna, fico lendo (e já terminei dois livros, semana que vem vocês verão qual).

O Gigante Enterrado, de Kazuo Ishiguro, é outro livro que ganhei de presente. Digo isso porque preciso novamente reforçar o que já havia dito em pelo menos uma ocasião: meus amigos entendem melhor o meu gosto literário que eu mesmo. Convidei um casal de amigos para se juntarem a mim no meu aniversário ano passado e, por um imprevisto, eles não puderam comparecer. Quis a vida que nos reuníssemos dez dias depois para a celebração do ano novo – e com grata surpresa, descobri que me traziam um presente. O Gigante Enterrado, de Kazuo Ishiguro, recentemente galardeado com o Nobel de Literatura em 2017. Senhoras e senhores, não sei nem por onde começar…

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Foto: Ana Carolina Lopes de Almeida. Elenco: Thina Malta de Lucas.

Kazuo Ishiguro é um homem de 63 anos que, tendo nascido no Japão e sido criado no Reino Unido, é considerado britânico. Escreveu ao todo oito livros, traduzidos para mais de 40 países. Sendo um homem voltado para os romances (é o autor de “Não me Abandone Jamais“, que virou filme em 2010 com Sally Hawkins e Andrew Garfield, e “Os Vestígios do Dia“, cujo filme de 1993 com Emma Thompson e Anthony Hopkins concorreu ao Oscar de Melhor Filme), Ishiguro molha o pé na fantasia com seu mais recente romance, e em seguida começo a explicar o porquê.

O Gigante Enterrado é, em poucas palavras, a história de Axl e Beatrice, um casal de idosos da época logo após a morte do famoso Rei Arthur, que instituíra a paz entre saxões e bretões. Para traçar um arco dramático e justificar o enredo, eles decidem, depois de algumas conversas, ir até a aldeia onde o filho se encontra para visitá-lo e, eventualmente, pedir que morassem junto com ele para que ele os observasse na velhice.

O livro é tão maravilhoso que fiz questão de lê-lo com calma, devagar, para não chegar tão rapidamente ao final. Num livro que carece da urgência dos jovens do século XXI e traz a plenos pulmões a calma e a ponderação de idosos pré-ingleses, todos os elementos são tão bem interligados que, apesar de o livro mencionar diversas vezes elementos fantásticos, passei boa parte da leitura supondo que esses elementos são, para além da visão de Axl e Beatrice, puras superstições. É um dos livros mais incríveis que tive a graça de ler e sei que nunca o leria sem o auxílio de quem me presenteia com livros.

Mas é tão injusto resumir essa história a esses acontecimentos que, pedindo imensas desculpas, enveredo a seguir na história real do livro, absolutamente recheada de spoilers dessa obra que eu exijo que você leia. Leia e me chame, porque eu preciso muito falar sobre esse livro, talvez pra sempre!

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O Gigante Enterrado é uma história de amor avassaladora. Não é, de modo algum, uma história de paixão, mas de um amor tão profundo que dá inveja a qualquer um que diga que ama. Axl e Beatrice estão, após incontáveis anos juntos, vergando ao peso do tempo. Um belo dia, olhando ao amanhecer, ele se recorda da proposta da esposa de irem ao encontro do filho um dia e decide buscar do esquecimento esse plano. Eles vivem numa caverna, junto com todo um povoado de bretões, numa Europa medieval e atrasada, num passado mágico, mas incrivelmente semelhante com a realidade.

Com frequência, um comenta com o outro sobre uma espécie de névoa que paira sobre esses povos, que os faz esquecer das coisas. Não, não se trata de um sintoma da velhice, pois acontece com todos: lembra daquela senhorita ruiva que passava cuidando das pessoas do povoado? Não, se isso aconteceu, foi antes de eu nascer. Mas isso faz 3 semanas! Ou será que faz anos? Ou será que nunca aconteceu? Ou seja: como é o nosso filho, Axl? Como era seu rosto? Por que ele não está conosco nem manda notícias? Será que temos mesmo esse filho?

O livro mostra que a névoa atua em todos os lugares, e o assunto é retomado a cada novo encontro; o barqueiro e a mulher que o atormenta; o menino Edwin; o guerreiro Witsan; os padres no mosteiro e até mesmo o cavaleiro idoso Sir Gawain, cada qual revelando um aspecto novo que elucida um pouco mais as dúvidas do casal. O ápice do livro, na minha opinião, está em cada detalhe, todo o cuidado que Axl tem com Beatrice e vice-versa. A dúvida sobre o passado, apagado por essa névoa, os faz questionar constantemente: queremos nos lembrar do nosso passado? Ele constitui invariavelmente quem nós somos? Se acordássemos hoje, em 2018, sem memórias do passado, seríamos naturalmente quem éramos antes?

O barqueiro era diariamente atormentado por uma senhora idosa e, acompanhando por um breve instante a história deles, Axl e Beatrice descobrem que esse barqueiro transporta pessoas para uma ilha onde há muitas pessoas, mas elas simplesmente não encontram umas às outras. Aos casais, o barqueiro é obrigado a perscrutar o coração para avaliar a possibilidade de fazerem juntos essa travessia – o barqueiro percebera que o vínculo entre essa senhora e seu marido era frágil e levou o homem, deixando-a sozinha.

No caminho para o povoado do filho, o casal encontra um velho curandeiro na aldeia saxã ao lado, que pede ajuda com o menino Edwin que, na noite da chegada do casal, havia sido resgatado das mãos de um ogro por um bravo guerreiro, chamado Witsan, de passagem enquanto cumpria missão dada por seu rei. Por uma ferida causada pelo ogro, os saxões pretendiam sacrificar o menino antes que se tornasse amaldiçoado. Witsan decide levar o menino, acompanhado por Axl e Beatrice. Witsan, por muito do tempo em que convive com Axl, o observa de maneira muito respeitosa, quase servil – o que deixa tanto Axl quanto Beatrice curiosos sobre o passado que tiveram. Durante sua trajetória, o grupo encontra Sir Gawain, que questiona a missão de Witsan, que fica clara: ele está nos arredores para assassinar a dragoa Querig, missão da qual, confessa Gawain, também fora incumbido pelo próprio Rei Arthur.

Segundo Witsan, o lorde Brennus, saxão, contratara um domador de dragões para controlar Querig e dominar os bretões. Não por acaso, o guerreiro precisava se disfarçar de idiota muitas vezes frente aos soldados do lorde. Ao chegarem à abadia, Witsan declara que Edwin tem alma guerreira e passa a treiná-lo para tal função. Em consulta ao grão mestre da abadia, Witsan também revela que a névoa a que Axl e Beatrice se referem é um efeito mágico do bafo da dragoa, a soprar por toda a região.

Os guerreiros de Brennus chegam à abadia durante a noite para capturar Witsan, o que obriga Axl, Beatrice e Edwin, a fugirem por um porão salpicado de ossos e crânios, muitos deles pequenos demais para humanos normais. Lá, reencontram Gawain, que os escolta para fora. Depois de muito caminhar, chegam à área aberta novamente, em que Edwin prontamente foge para reencontrar seu mentor e Gawain se despede mais uma vez.

Seguindo seu caminho, Axl e Beatrice encontram três crianças que, aparentemente, sabem o segredo para liquidar a dragoa: um bode estava sendo alimentado com veneno de dragão, que não causava mal ao bode, mas mataria o monstro. Axl e Beatrice decidem, também, assumir a missão de levar o bode até Querig e cumprirem a missão que fora dada a Gawain e a Witsan. Ao pé da colina sobre a qual repousa Querig, o grupo todo se reúne: Witsan, Edwin, Axl, Beatrice e Gawain. Axl percebe então que Gawain, na verdade é o protetor de Querig e que a paz dos povoados depende de uma magia imposta por Merlin sobre a dragoa, para que o povo saxão esqueça os crimes de guerra realizados por Arthur (assassinatos das famílias dos guerreiros saxões, incluindo mulheres e bebês, cujos crânios foram pisados por Beatrice). Após o embate de Gawain e Witsan, o guerreiro corta a cabeça da já idosa dragoa e anuncia, triste, que não conseguirá batalhar como seu rei ordenará na iminente guerra de vingança dos saxões, que em breve lembrarão os horrores cometidos no passado.

Recuperando as memórias sobre o filho, Axl e Beatrice investigam suas próprias memórias, enquanto buscam uma barca para visitar o filho numa ilha. A questão é que o barqueiro só costuma levar um passageiro por vez…

A névoa é tão presente e tão importante pra trama, crescendo do ponto de efeito natural da velhice para centro da narrativa de modo tão natural, que eu a sinto como personagem. Os devaneios de Gawain, que inicialmente não faziam sentido, ganham uma dimensão tão ressentida e dolorosa à luz da memória recuperada que me fizeram adorar e detestar o cavaleiro. Muitas coisas importantes foram deixadas de lado nesse resumo, como as lembranças do filho e, principalmente, por que essa jornada efetivamente começou. Amor, memória, ressentimento e união escorrem desse livro às torrentes. Obrigado, uma vez mais.

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