Inverno quente; Café frio.

Em plena manhã de sábado, após fazer o café da manhã pra Ana (ela insiste em esperar o sanduíche esfriar), precisei escrever. Sinto – e sentimos, os pseudoescritores do blog – muito pela ausência, mas como muitas vezes só rezamos quando precisamos muito de ajuda divina para algum problema, hoje eu preciso por pra fora essa contradição que me tomou por assalto. Bem vindos de volta ao Despressurizando!

Com muitas atividades previstas para hoje, acabei parando aqui. Tenho um trabalho para terminar de corrigir e não quero que a Júlia se sinta muito sozinha aqui em casa, mas realmente tive que parar tudo pra escrever. A janela do meu quarto dá para os fundos de um prédio e temos uma visão privilegiada de um salão de festas e um terraço sobre (e ao lado de) uma garagem. Algumas noites do ano, vejo festas acontecerem com públicos muito variados, decorações bastante adversas, mas hoje tenho um espetáculo à parte.

Ao abrirmos a janela para tomarmos o café à luz do sol do inverno, nos deparamos com uma pequena cama elástica instalada no terraço desse prédio vizinho. Base de metal, elástico verde, hastes vermelhas, laranjas e amarelas enredadas por uma fina, porém resistente, rede. Sentada ao centro da cama, um menino de uns 5 anos, esperando sua responsável estar próxima para começar a pular; aguardando a presença daquela que, por aproximação, irradiaria a confiança necessária para o começo da aventura de desafio gravitacional que o menino precocemente desfrutaria enquanto os mais velhos continuavam organizando o aniversário – que imagino que venha a ser comemorado na hora do almoço.

Acontece que, bem no momento em que a diversão começa para a criança, aos olhos amorosos de sua adulta acompanhante, o Instagram da Ana começa a reproduzir algo aterrador: um vídeo do qual só escuto a narração e a música. É uma voz feminina, em inglês, apontando os crimes, abusos e golpes que a maior área de floresta tropical do mundo vem sofrendo.

Confesso que tenho sido um pouco compulsivo ao acompanhar os desdobramentos ambientais dessa administração. A preocupação com a Amazônia, em sintonia com outras posições políticas, me fez abrir, ainda antes do primeiro turno das eleições passadas, meu voto para Marina Silva – aquela, que ficou atrás do Cabo Daciolo. Agora, cada vez que um desrespeito à nossa casa comum se desenrola, percebo como não me conforta, nem um pouco, o sentimento de “estar do lado certo da história”. Quão ridículo é esse individualismo que se autoindulge.

Mas a criança não tem nada a ver com isso. É aniversário dela, e ela precisa, hoje, se preocupar em chegar o mais alto possível nos seus pulos na cama elástica. Hoje o mundo precisa ser mais suave e mais lúdico, pelo bem desse aniversariantezinho. E eu, que critiquei a Ana, deixei esfriar o meu café…

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