Contrariando Jorge Ben Jor, essa foi a mais linda história de amor que me contaram. Não se trata do príncipe Shah-Jehan, nem da princesa Mumtaz Mahal, mas sim de Florentino Ariza por Fermina Daza. O amor nos tempos do cólera é uma obra prima do escritor colombiano Gabriel García Márquez que deve ser lida por todos, os que amam, os que já amaram, os que ainda vão amar.
O meu amor por Gabriel José García Márquez começou há alguns anos, com Cem Anos de Solidão. Foi um livro que me foi indicado pela minha mãe e que é sempre muito discutido na minha família, portanto, além de uma história magistral, ela tem esse fundo “familiar” para mim. O humor de García Márquez é divertido, irônico e inteligente e, por isso, sempre que um de nós lê algo assim, acabamos parando tudo na casa para compartilhar trechos e rimos da realidade fantástica que ele domina tanto, com seu estilo único de escrita.

Antes de O amor nos tempos do cólera, li ainda A crônica da morte anunciada, que começa com um spoiler na primeira linha, mas que consegue, apesar de tudo, prender o leitor de forma absoluta na leitura. Com os dois primeiros livros que li, já estava fisgado. Agora não paro mais. E então cheguei no tema deste post. Eu já havia visto o filme, com Javier Bardem no papel principal e a atriz brasileira Fernanda Montenegro como sua mãe, e gostei muito. Mas o filme não chega perto da obra original. A genialidade da história dificilmente seria transposta em sua plenitude para a grande tela.
O amor nos tempos do cólera é uma ode ao amor. O filme talvez seja como um beijo furtivo ou uma noite de amor casual, mas o livro é uma paixão que nos arrebata. Entramos na pele de Florentino Ariza, o homem mais apaixonado do Caribe (não digo do mundo porque não li Romeu e Julieta ainda, mas me pergunto se o jovem Montecchio se manteria firme e resoluto como Florentino), e aprendemos mais sobre aquela que pode ser dita como a forma mais pura de amor: o amor platônico.

Na Colômbia dos tempos em que amantes trocavam cartas escondidas ou, em tempo, mensagens por telégrafo, acompanhamos Florentino Ariza – um jovem um tanto quanto soturno, com muito a doar, mesmo que possua um grande vazio dentro de si – que tem sua vida mudada ao conhecer a bela Fermina Daza, uma jovem forte e orgulhosa. Eles vivem uma paixão adolescente, com o tempero do proibido e a excitação da descoberta do amor. Entre vais e vens, se separam e entra a terceira peça do clássico triângulo amoroso, o Doutor Juvenal Urbino, um bom partido, inteligente, de boa família, rico e tudo mais que poderia ser desejado de um pretendente. Fermina Daza se junta ao Doutor Urbino, como mandariam os costumes da época (e a família) e deixa o protagonista de lado.
O livro também é, em parte, a história de uma paixão não correspondida, mas inabalável. Florentino Ariza é só amor e o autor consegue nos mostrar isso de forma magistral. Todos os detalhes da vida do personagem mostram isso, desde sua vida profissional, pessoal, seus hobbies (como a música ou a jardinagem das mais diversas rosas – uma para cada momento, é claro) e sua vida secreta, que é dedicada ao amor, pode-se dizer, mas também não. Na visão do personagem, a única mulher da sua vida, a única que tem o seu coração, é Fermina Daza. Aqui caberia uma discussão da “ética do amor”, se tal coisa existir. Florentino Ariza tem seu código e o segue na vida toda. O que é interessante na escrita de García Márquez é que seus persongens jamais traem a sua essência, são consistentes e coerentes dentro da realidade fantástica que ele nos presenteia em suas obras.

Um ponto que eu gostaria de destacar para os futuros leitores, seguindo a ideia de não dar muitos spoilers, é que prestem atenção nos personagens e na sua complexidade, cada um ao seu jeito. Também acredito que chama a atenção a força das mulheres em uma história que se passa no final do século XIX e início do século XX. Na época, as mulheres tinham um papel tido como menor pela sociedade, mas mesmo assim, mostram sua força na história. O próprio Florentino Ariza é criado apenas por sua mãe e só consegue crescer profissionalmente com a ajuda do “apadrinhamento” de uma mulher. Por outro lado, alguns preconceitos aparecem na história, como o racial, especialmente na região do Caribe na Colômbia, que recebeu muitos escravos. Não identifiquei se apenas como forma de mostrar o espirito do tempo, ou se por uma inclinação do autor. Prefiro acreditar que seja o primeiro.
Escrever este texto sobre O amor nos tempos do cólera chega a ser difícil para mim. Gostei tanto da obra que não sinto que seja capaz de colocar em palavras o amor que senti ao ler este livro. Acredito que é um dos melhores que já tive o prazer de folhear e imergi totalmente no romance. Leiam, riam, chorem, mas principalmente, se apaixonem.

IMPOSSÍVEL NÃO AMAR……
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