Eu não sou um super entusiasta do uso de primeira pessoa em literatura; nem na prosa, muito menos na poesia. O meio termo está (e não poderia ser diferente) em Sherlock Holmes. Sir Arthur Conan Doyle se descolou do padrão do conto autobiográfico, apresentando a seus leitores um precursor da autoficção séculos antes de Doubrovsky.
Incorporando a pele do Dr. John H. Watson, Doyle utiliza a perspectiva da primeira pessoa sem, no entanto, ter sido o protagonista das obras que compôs. Na minha opinião, a perspectiva do narrador invisível e onisciente me transmite um ar de imparcialidade que facilita a compreensão das intenções, motivações e particularidades das personagens – e Watson quase alcança isso, pois reconhece em várias obras o papel irrisório que assume nos casos solucionados pelo Mr. Holmes.

O que mais me toca em livros escritos com perspectiva de primeira pessoa é justamente a parcialidade. Eu sei que parece paradoxal, mas é porque eu acho que o mais comum é que isso não fique claro, embutido na escrita de quem vive as ações relatadas. Me explico: Dom Casmurro (Machado de Assis) é escrito na opinião de Bentinho e até hoje, permanece a dúvida se Capitu o traíra ou não, bem como a paternidade de Ezequiel. Por quê? Simplesmente porque apenas uma opinião parcial é ouvida sobre o assunto. Por ser parcial, é questionada, não obstante seja a única possível. Assim, não há conclusão e a própria obra depende da crença ou descrença do leitor. Não adianta. Machado é gênio.
Ainda que não alcance essa magnitude em sua obra, admiro muito o uso da primeira pessoa participante das obras de Joël Dicker. Aprecio tanto o trabalho do Suíço que me valho dessa publicação para apresentá-lo.

Joël Dicker é um advogado e escritor de 32 anos, nascido em Genebra, Suíça. Antes de entrar na faculdade de direito de Genebra, Dicker fez um ano de escola de atores no Cours Florens, em Paris. Em 2010, aos 25 anos, ele ganhou um prêmio municipal para novos escritores e, após vender os direitos a um editor francês, seu livro “Os últimos dias de nossos pais” (Les Derniers Jours de Nos Pères, no original) foi publicado e, quase imediatamente, se tornou sucesso de vendas locais. É um livro interessante sobre a Executiva de Operações Especiais, criada por Churchill após seus exércitos terem sido encurralados em Dunquerque (aliás, vale a leitura da resenha do Marcelo sobre o filme, clicando aqui). Apenas seis meses depois dessa publicação, chega às livrarias o primeiro estouro:

Nesse livro, Dicker assume o protagonismo de Marcus Goldman, escritor e estudante de literatura que vivencia uma dificuldade muito recorrente à profissão: a síndrome da folha em branco. Não sabe sobre o que escrever e a pressão aumenta conforme os prazos para com seu editor vão chegando. Ele se fia a seu mentor intelectual, o professor Harry Quebert, já aposentado e vivendo numa cidadezinha interiorana. Nesse período de refúgio, um crime sofre uma reviravolta e coloca Harry como principal suspeito. Marcus assume a bronca e a investigação por conta própria enquanto escreve um livro sobre o caso, satisfazendo seu editor enquanto explora inescrupulosamente o amigo.
Em 2014, Dicker lança seu terceiro livro – o segundo na pele de Marcus Goldman. Temporalmente, o livro oscila momentos da infância de Marcus em Montclair na comparação com seus primos de Baltimore. A admiração e a influência dos parentes distantes na vida do personagem são tão grandes que, retomando o drama acontecido e o ponto inexorável de transição entre a juventude e a adultez, Marcus intitula seu livro de Le Livre des Baltimore.

Em todas as obras que escreveu, Dicker explica o mundo a seu redor de maneira muito sensível. Expõe os medos e a solidão de Paul-Émile em Os últimos dias de nossos pais, levando o leitor a sentir o mesmo desespero que os personagens do livro vivem nas trincheiras da resistência. Já nos sucessos de Marcus Goldman, emerge toda a nostalgia de sua infância em O Livro dos Baltimore e todo o carinho e amizade sentidos pelo mestre em A Verdade sobre o Caso Harry Quebert. Não há um livro dele que eu não recomende para entretenimento! Leiam e me contem o que acharam enquanto esperamos o próximo sucesso!

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