Eu sou um homem apaixonado. Não que eu seja lá muito intenso e expansivo nas minhas declarações de amor – acho aliás que não são do gosto da minha namorada mesmo – mas em geral músicas românticas me tocam especialmente graças a esse relacionamento que me completa há alguns bons anos.
Digo isso porque algumas das músicas que mais descrevem o meu ser apaixonado estão no CD “Rua dos Amores” de Djavan. Esse homem faz coisas com um violão que eu suspeito que sejam, literalmente, massagens no meu ouvido.

Agora, infelizmente, um acontecimento triste: quando “Rua dos Amores – Ao Vivo” foi lançado, no ano seguinte, Djavan sofreu pesadas críticas sobre seu posicionamento contra biografias não autorizadas. O próprio cantor disse à repórter Giuliana de Toledo que, nesse caso das biografias, “teve alto teor de racismo e ressentimento”, logo após dizer que é “um homem negro e um negro não foi feito para fazer ninguém pensar, para produzir influência”.
Enfim, voltando ao CD original, de 2012, estamos falando de 13 músicas que, em 57 minutos, pervadem a nossa consciência. Djavan fez um álbum riquíssimo, colocando suas novas composições numa ordem que permite que as músicas se substituam no nosso desejo de ouvi-las: tem aquela música que se gosta de cara, como “Pecado”, aquela que cresce conforme o ouvido se acostuma, como “Quinze Anos” e aquela que, acho que será assim pra sempre, deixa dúvidas sobre como tal som foi traduzido em notas, como a faixa que dá título à obra, “Rua dos Amores”. Me permito, assim como o próprio Djavan fez à época, fazer um breve comentário sobre cada faixa.

- 1. Já Não Somos Dois
O álbum já começa com uma batida parecida com jazz e as primeiras duas palavras (das várias) que Djavan me apresentou: azoou (perturbou, atordoou) e vau (ponto de onde se pode atravessar a pé uma corrente de água). Já Não Somos Dois é a música sobre alguém que acreditava estar em sintonia com seu par – e que, meio do nada, está sozinho. A tristeza da decepção amorosa revestida da confiança na recuperação. Findo o relacionamento, segue o amor lírico.
Não sei desanimar, te quero night and day, sei do que faço jus!
Sem saber mergulhar, ou mesmo nadar, águas que atravessei.
Tudo aquilo que foi enfrentado para a construção e manutenção de um amor que não vinga, que não se revela recíproco. Todos os questionamentos que não foram feitos e pensamentos lógicos deixados pra trás. Afinal, a desconfiança, semente nativa do coração humano, só germina bem à vontade na solidão.
- 2. Anjo de Vitrô
Em outra casa dessa Rua dos Amores, Djavan conta outro causo: aquele relacionamento que, de assalto, sobe a outros patamares. Me acende a ideia de um casal juvenil, que vive a ansiedade dos prazeres da carne e – como toda alma adolescente – faz disso uma transcendência. Mas era só a chuva que caía.
Da margem escura a luz a devenir
Será seu rosto imaculado a refugir?
Anjo de Vitrô não se compra, se ganha. Não se vende, se dá, se doa. Nesse espírito também os amantes se têm por darem a si mesmos; uma tímida, assustada. Outro deslumbrado. Os metais ensaiam o voo que alçam os amantes nessa música.
- 3. Triste é o Cara
Essa faixa é um alerta: quem não morre de amor nenhuma vez, morre sem ter vivido realmente. Uma exaltação à busca desse amor retratada pelo efeito de uma vida sem ele. Apaixonar-se é abrir mão de si e triste é o cara que, frente a esse abismo, não se joga.
Um destino tão banal, uma vida igual
Concedeu, arregou, sob o pânico da dor.Que besteira, tudo é beira na mangueira
E nego vive de amor.
Se a música canta que amar é solução, é porque apesar desse sujeito acreditar que o amor é entrave, a realidade – que posso comprovar – é que tem coisas nessa vida que só a sensação de amar e ser amado resolve. Verdadeiramente, quem nada perdeu até hoje não se achou.
- 4. Acerto de Contas
Eis que Djavan nos apresenta um sambinha bem bom nessa quarta faixa. É uma dor da perda, realçada pela autocrítica do apaixonado que quer mudar, que sabe que errou, que precisa se explicar e promete que as coisas serão melhores.
Outra madrugada já passou e você nem lô, devastando a cidade.
O verde da mata é outra cor ao sentir que estou lhe perdendo
À perspectiva do amor perdido, o amante compositor de samba sorri e exagera suas atitudes e emoções: só fiz coisas tontas e, nesse acerto de contas, quem paga é o meu coração. A música conota em mim um sentimento daquele relacionamento que sempre vive por um fio, embora sempre resista.
- 5. Bangalô
Nem todo amor dura, nem todo amor dá certo. Nessa matéria, amor se dá ao mesmo tempo que se dói. Se um relacionamento que vive cansa, o que morre cansa mais fundo. Eu nem sei se quero amar outra vez, o amante pensa, dolorido.
Com tanto a lamentar nada perdi
Sem você, sem você, sem você.
Mas a música é, ainda que nesse blues lento e carinhoso, um manifesto de independência. Na vida o amor é um negócio: se ganha, se investe, se perde. O coração, nessa bolsa de valores, cansa. Mas não vamos ficar vencidos de bar em bar. Bola pra frente, sem amor a vida segue também.
- 6. Pecado
Que som! Já começa com os sopros a mil – e eu adoro. Pelo que vi, era a música que costumava abrir os shows da turnê e não é por acaso. É vibrante, contagiante, dá vontade de levantar e cantar alto, junto.
E a bem dizer: insatisfaz
No entanto mulher mais querida está pra nascer!
Tudo que faz um amor terminar é pequeno, e tudo que é pequeno é sintoma de algo intransponível. Nesses detalhes, mesmo que o amor avance, perde-se em nuance quase um Chile inteiro. Que pecado!
- 7. Ares Sutis
Essa música me lembra uma toada latina, com uma letra quase epistemológica. A insegurança permeia toda a música, ao ponto de se questionar quem somos, por que estamos aqui e o quanto preciso me consumir pra ter um pouco de ti.
Quanto mais eu sou, menos sou o que sei.
E pra o que nasci, será que cumprirei?
Esse questionamento filosófico desvela um sentimento muito comum, que se apresenta ativamente em relacionamentos mais abusivos: preciso mesmo usar esses sapatos tão peculiares para te agradar? E a música termina quase trágica na minha opinião, pois percebe que, quanto mais o “eu” vive, mais aprende sobre quem deve ser para esse “tu” e mais vive para esquecer quem se deve ser para si, violentando até mesmo seus ares mais sutis.
- 8. Quinze Anos
Um amor é um tesouro. Quinze Anos é uma música que, de cara, não me agradou, até passava ela quando ouvia o CD no Spotify. Até que algo estalou na minha cabeça e eu chorei ouvindo. Amar é estar feliz por amar – um amor correspondido é quase tudo o que se há de querer na Terra.
Pra vida inteira seguir sua voz, acolher-me aos pés e adorar quem sou…
Bendizer aos céus por querido ser e viver de amor!
Djavan compôs essa música em homenagem a esse amor que dá certo, que perdura e que não para de crescer. Duas vidas enredadas de bem-querer. Pensada como homenagem à união do Djavan com a Rafa, sua esposa, Quinze Anos é mais do que isso: o que estabeleceu você e eu não se dilui.
- 9. Vive
Vive é uma canção delicada sobre aquele amor que pode ir com calma. Para se degustar, tranquilamente, e não para se embebedar. Minha vida é sua como o marinheiro é do mar, mas desencana, meu amor.
Tanto que eu sonhei nos amar à pleno vapor
Tanto que eu quis fazê-la estrela da sagração de um ser feliz.
Essa música vive na expectativa de um amor que talvez não possa se desenhar nesse momento, mas que perdurará, imutável e congelado até que se possa cumprir. Uma delícia de ouvir – e você pode conferir também, a versão no disco da Maria Bethânia.
- 10. Pode Esquecer
Essa é uma música patriótica, nada me faz pensar o contrário. E sim, eu e o Brasil, o Djavan e o Brasil, tu e o Brasil, são 200 milhões de histórias de amor. No país que é cantado, vida só há de ter quem a dividir e não se pode ir além nas costas de ninguém.
E tudo se liquefaz num mar de candura.
Se alguém tiver que arbitrar, só vai poder contar com o delírio de um cantor
O que se passou, passou: prescreveu!
Djavan escolheu gravar essa canção de maneira intimista, apenas voz e dois violões, porque cuidar do nosso lugar é simples. Por amor, como for, vai. Ah, Brasil, nossa história poderia ter esse tom romântico…
- 11. Reverberou
Mais uma canção que evoca a juvenilidade do amor. Em que cada decisão é o mover de montanhas e as batidas do coração reverberam o corpo todo. Outro samba, conduzido dessa vez por uma guitarra que toca com uma delicadeza. A surpresa com o aceite, com a retribuição.
E por ser ela a luz que me renasce, no instante em que eu a enlaçar,
Socorro! Posso pirar com o calor do corpo dela.
Nesse momento, todo amor é pra sempre e sempre tem algo, alguém ou algum que nos tira a certeza. Quero te chamar pra dançar, mas tenho medo. Se você me sorri, meu corpo reverbera. Nem sei se é assim que o amor nasce, mas já estou correspondido.
- 12. Quase Perdida
Fui correspondido! Eu já estava conformado, mas tudo bem! Enfim, não pude crer: você me ligou! Ah, que euforia! Essa música é a história do amante que muda sua vida por esse amor. Não se precisa entender, não se precisa censurar. Se for pra ter sem pagar a mais, deixa estar: isso já dá!
Sendo assim, não será demais
Se eu disser que a amarei por todas as vidas!
Ninguém duvida que será tão bom viver do seu batom. É mais um Jazz do Djavan que prega a “discórdia, nunca mais”. Seja em Madrid, ou Murici, viverei declamando que agora é só amor e paz!
- 13. Rua dos Amores
Sim, uma música pode ser tão curta se for tão boa. tão curta e tão sensacional que a letra inteira foi citada. Não tem o que deixar de lado, a mensagem é simples e breve: a lua é grande e charmosa, mas até ela, nessa Rua dos Amores, se desdobra e se recolhe frente a tudo: você.
Vê! O horizonte despe a lua; a rua se amontoa pra ver e a nua nem taí pra o que faz Ver você assim descendo a rua, a lua, logo, passa a saber quem é tudo
Quando encontra você!
Se é simples a letra, tanto complexa é a melodia: ao ouvir a melodia, não se imagina que alguém a possa cantar; ao ouvir a letra, Djavan a interpreta tão maravilhosamente que não há como transcrever tal melodia numa guitarra. Na Rua dos Amores, é sempre noite de lua cheia.
–
Enfim, é um dos melhores álbuns que eu tive a chance de ouvir na vida. Recomendo a todo mundo, a qualquer momento, com qualquer humor. O álbum, como um todo, é muitíssimo bem construído e eu sou uma pessoa um pouco mais feliz hoje por compartilhar minha admiração por esse som e esse cara.

DJAVAN…É DEMAIS…
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