Somos livres (parte 1)?

Esse é um assunto que me intriga. Acreditamos que sim, que somos livres. Mas tenho as minhas dúvidas. Talvez o que exista é uma ilusão de liberdade. E talvez nós saibamos disso, mas escolhemos não saber, pois como nos diria Neil Gaiman, através de sua icônica personagem Morte, temos o potencial de saber tudo mas escolhemos dizer para nós mesmos o contrário.

O título aqui leva um “parte 1” pois, com certeza, vou ficar sem dizer tudo que quero, porque é assunto muito longo para discutir em um post só e também pelo fato de eu adorar a História do Mundo: Parte I do Mel Brooks. Além disso, a motivação para escrever sobre esse assunto veio da minha participação em um evento de Administração (onde foquei em Marketing) e assisti a vários trabalhos de comportamento do consumidor (a.k.a. nós, em muitos dos casos).

Já vi alguns pesquisadores dizendo que o marketing não manipula as pessoas. A busca é por facilitar trocas no mercado. Mas acho que tem um catch aqui. Talvez eu, como pesquisador, seja super bem intencionado na busca pelo conhecimento, mas quando eu descubro que as pessoas compram mais produtos de limpeza se o ponto de venda tem um aroma cítrico no ar, que as pessoas saem mais rápido do supermercado quando uma música mais agitada é tocada no sistema de áudio, ou que eu posso manipular certas emoções para garantir certos “outputs” (seja a compra ou outra coisa), acho que estamos de certa forma lidando com algo que eu estou chamando aqui de “liberdade” – talvez erroneamente.

No agregado, muitos dirão que não é uma manipulação das pessoas, que é o entendimento de mecanismos de comportamento e que isso vem para empurrar a barreira do conhecimento ou mesmo para empoderar as pessoas, que podem se compreender melhor e o mercado passaria a atender melhor os consumidores. Mas e no individual? E se aquela pessoa não quer comprar, de fato, aquela cerveja reposicionada no supermercado? E mesmo que dado consumo venha para bem, mesmo que me traga alegria, isso justifica que alguém molde minhas ações e minhas atitudes? Não tenho essa resposta.

Minha reflexão não vem tanto no sentido de responder a essas perguntas, mas sim no de entender até onde vai a nossa liberdade de escolha. Os vieses e os moderadores e mediadores do comportamento estão aí, espalhados. Alguns nós sabemos, outros não, mas te garanto: eles estão por aí. Então compreendê-los talvez seja algo bom, pois tira um véu da sua frente e talvez só podemos ser livres através da racionalização da nossa vida (vou ali cantar a Marselhesa e já volto).

Ou não. Não sei você, mas não confio em muita gente por aí e não confio nelas especialmente sabendo como direcionar meu comportamento. As eleições são um exemplo claro disso e que impacta a todos. Sabe-se que a partir de um montante X de dinheiro, um candidato se elege, especialmente nas eleições proporcionais (acredito que nas majoritárias outros fatores tenham um peso um pouco maior). Pois, a matemática é simples: X dinheiro = Eleição e Eleição = Y Votos, logo, Dinheiro = Votos e temos uma ilusão de democracia e de que escolhemos nossos líderes.

Nesses casos, acho que pensamos muito “aquelas pessoas são manipuladas, os votos são comprados”. É muita arrogância se achar acima disso. Todos estamos sujeitos a isso. Uns recebem mais diretamente outros menos e essa é a única diferença. Dar dinheiro para alguém é UMA forma de “comprar” votos. O dinheiro nos “compra” por outros caminhos também.

Talvez uma liberdade absoluta não exista. Talvez nem deva existir. Falamos de liberdade como um direito que temos sem talvez entender o que isso quer dizer. E é o tipo de tema complicado, pois muitos vão pensar “comigo é diferente”, “eu não deixo que me manipulem”. Também é difícil pois acredito que todos são a favor da liberdade. Eu também sou. Só não sei o que é essa tal liberdade, como diria o saudoso SPC. Mas vamos conversando e tentando descobrir.

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2 comentários em “Somos livres (parte 1)?

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