Já falei aqui que os textos do Marcelo inspiram os meus, isso não é novidade nenhuma. Semana passada ele se questionou se somos realmente livres e eu hoje quero fazer minhas considerações iniciais sobre um tema que está incrivelmente presente na minha vida: a arrogância.
De acordo com o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, arrogância pode significar: (1) sobranceria menosprezadora, (2) altivez que deixa ver o pouco caso que se faz do adversário ou (3) insolência. Em termos mais populares, é a impressão passada no agir de alguém que conota um desprezo, um “olhar de cima”. É uma falta de educação ao desqualificar através de atitudes a pessoa com quem se argumenta. Mas antes de retomar o assunto, deixa eu falar um pouco de mim.
Meu sonho na infância sempre foi ser muito respeitado e ouvido. Nunca tive ambições profissionais fixas (como ser médico, advogado, lixeiro, astronauta…) mas sabia que queria ser considerado um sábio dessa área – seja qual fosse. A rebeldia suave da minha adolescência como jovem de Igreja foi decidir que eu queria ser destaque num ambiente em que meu saber fosse “natural”: muitos anos e muitas sessões de terapia foram necessárias para que eu entendesse que isso não significava mais do que querer fama sem os esforços necessários.
Então, minha saída – inspirado no Poderoso Chefão – foi impor ao meu dia-a-dia a pretensa gravidade de quem sabe o que está falando (pra tudo). O resultado foi óbvio: falei muitas coisas das quais não entendia patavinas e, considerando a proporção normal, errei muitíssimo mais que acertei. E geralmente isso ficava bem claro. Das poucas vezes em que acertava, me invadia aquela sensação de “provei meu ponto, estou certo, como deveria sempre estar”. E isso levou a um grande erro, maiúsculo, que me afeta até hoje: eu comecei a achar que conhecer pessoas competentes me faria parecer competente; que ser um “boa-praça” no trabalho me garantiria emprego.
Voltemos brevemente à arrogância: minha atitude arrogante de batalhar para querer estar sempre certo causou vários problemas e evitou apenas um. Esse problema, que diagnostiquei e imediatamente comecei a tratar, é o de usar a internet para destilar meu “conhecimento” sobre tudo. Apenas identificando quando eu estou discorrendo sobre o desconhecido, entendi como fazem os meus semelhantes – os especialistas de Facebook.
Enfim, como um Biff Loman (de “A Morte do Caixeiro Viajante”), vi boas oportunidades passarem por mim sem que eu as agarrasse, acreditando piamente que meu leve desinteresse seria um charme irresistível. Não era e não é. Diferente de Biff, pelo menos eu percebi onde ia parar minha estratégia profissional e mudei.
O tema da arrogância me é presente quase todos os dias, e por muito tempo (mais da metade da minha vida) eu tratei a arrogância como uma qualidade minha – claro, não com esse nome; eu dizia que era “convicto”, “resoluto” ou “ardiloso”. Fui descobrindo que isso não significa mais do que “teimoso”, “cabeça-dura” ou “mente fechada”. Nesse esforço de mudança, passei a considerar mais as opiniões dos outros, não discutir sobre assuntos que eu não domino, perguntar mais (muito mais) e, recentemente, me dei um luxo inimaginável para o Octavio de 16 anos: não ter opinião formada sobre assuntos.
Ainda tenho muitas coisas a dizer sobre arrogância, e deixo aqui como mensagem final os questionamentos que hoje me faço em relação à minha arrogância e à dos outros: em que medida a arrogância está no tom de quem fala ou no pano de fundo da vida de quem ouve? Até que ponto a tentativa exaustiva de se fazer compreender é arrogante, por menosprezar a capacidade de entendimento do interlocutor? Há alguma instância em que arrogância se torne um mal necessário? Qual? Tu tens uma opinião formada sobre teus níveis de arrogância?

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