Vamos começar pelo começo e situar o lugar de fala desse texto: sou um homem branco e vim aqui falar da série Cara Gente Branca no Netflix. A série é deste ano (2017), indicada para maiores de 16 anos, conta com 10 episódios de aproximadamente 30 minutos cada e é excelente!
A série é inspirada em um filme homônimo de 2014 (que, por sua vez, é inspirado em um curta de 2006), escrito e dirigido por Justin Simien, que também escreveu os episódios do seriado, bem como dirigiu alguns deles. A história gira em torno de um grupo de alunos negros em uma conceituada universidade (fictícia) nos Estados Unidos e como eles encaram o racismo presente na instituição, nos colegas e na sociedade.

Cara Gente Branca tem uma mistura de humor com drama. O drama se dá obviamente pela triste realidade do racismo – e isso que a série se passa em uma grande universidade americana, o que nos permite inferir que os personagens vem de famílias com condição financeira de colocar seus filhos no ensino superior. Ou seja, não discute a situação da população negra que está economicamente marginalizada e traz à discussão o preconceito presente entre os brancos que receberam educação formal e que deveriam romper com essa visão de segregação por cor de pele. A série abre nossos olhos para o preconceito em toda a sociedade, mesmo pegando um recorte bem específico da população.
O humor presente na série é feito de forma muito espirituosa e sagaz, além de trazer uma acidez talvez necessária para discutir o tema central da série, que é o preconceito. Acompanhamos diversos personagens com aspectos bem marcantes – até mesmo acentuados – como forma de compreender características das pessoas e de certos grupos dentro da sociedade: aqueles tomam atitudes, os mais passivos, os alienados, enfim, vemos a variedade de formas com que uma pessoa pode se posicionar frente a algum problema ou situação. Inclusive, cada episódio acompanha um ponto de vista diferente, trazendo uma riqueza muito grande de abordagens de uma mesma questão.

Este ponto, das diversas visões, é um dos que mais me cativou na série. Acredito que é uma série que educa também, que abre os olhos e nos coloca em um exercício de empatia, especialmente para quem não vive na pele essa mazela da nossa sociedade que é o racismo. A série ataca diversos pontos que precisam ser apontados, diversas formas de preconceito que estão tão entranhadas na sociedade, que talvez alguns nós nem consigam ver. Quem acredita em racismo reverso, em autosegregação, ou que racismo não existe tem muito a aprender com Cara Gente Branca. Se você leu isso e pensou “mas nem toda pessoa bra…” deixa eu te interromper aqui já e recomendar mais uma vez essa série.
Vemos também que a crítica e a discussão são muito amplas. A série critica outras formas de preconceito, como a misoginia e certos estereótipos com outras minorias, como as pessoas LGBTQ e os asiáticos, para citar alguns exemplos. Além disso, vemos questões internas, como a forma com que são encaradas algumas pessoas negras que decidem se relacionar com pessoas brancas, ou o “privilégio da cor clara” que seria pessoas com a pele mais clara sofrerem menos preconceito que aquelas com a pele mais escura. A série mostra tudo isso em tom de sátira, com um humor ácido e uma crítica forte.

Cara Gente Branca tem 85/100 de Metascore (4.9/10 de User Score) no Metacritic; 100% no tomatômetro do Rotten Tomatoes (65% no escore da audiência); e 6,4/10 no IMDb. A comparação de notas entre a opinião dos críticos e dos usuários já diz muita coisa – eu não recomendo a ninguém ler os comentários das pessoas nesses site… ou recomendo, pois acaba sendo uma coisa meio Lei de Lewis do preconceito racial (a Lei de Lewis nos diz que comentários em textos sobre feminismo justificam a existência do feminismo). Li rapidamente algumas opiniões nestes sites e vi muito gente reclamando da forma com que são abordadas as questões raciais na série (eu poderia apostar qual o tom de pele dessas pessoas).
Caros leitores, recomendo que assistam essa série maravilhosa do Netflix. São poucos episódios e episódios curtos, então não tem desculpa para não ver! E caro Marcelo (sim, eu mesmo), recomendo correr atrás do filme e do curta metragem que inspiraram a série, devem ser bons e tu ainda tem muito a aprender sobre preconceito e os privilégios que tu tem por ser homem, branco, hétero, cis, classe média… Vai lá e depois nos conta aqui o que achou.

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