Desabafo sobre a série B.

Eu sou um cara competitivo. Muito competitivo. Não do tipo que rouba para vencer (o nome disso é corrupto) ou do tipo que escarnece do vencido quando é vencedor (o nome disso é babaca), muito menos do tipo que detesta perder e reage mal (isso é ser chorão). Pra mim, a graça do esporte é fazer o melhor para vencer. Tirando o Mortal Kombat, que eu certamente nunca participaria, nas outras competições, vencer não significa matar seu adversário – e nunca é isso que eu busco. A minha competitividade funciona assim: estamos jogando par ou ímpar e eu estou pensando qual número jogareis para escolher o meu; estamos jogando vôlei e eu sou o cara que sai correndo pra fora do campo pra salvar uma bola que seria perdida. Acho que não ganho mais partidas de o que quer que seja por isso, mas é assim que eu encaro os esportes: preciso entregar o melhor para vencer. Dito isso, quero falar sobre como esses últimos anos do Internacional me fizeram sentir.

Os números vão me falhar, peço desculpas, mas se bem me lembro, um jornalista conhecido do rádio porto-alegrense disse em 2004 que o time do Internacional jogava com tudo em todas as competições. Não queria perder nada em que entrasse. Esse espírito me acompanhou e marcou a minha identificação com o clube. Aliás, não por acaso, era a tônica do time formado por Muricy Ramalho, que estabeleceu as bases para que o clube conquistasse a América e o mundo em 2006. Eu sabia que a gestão Carvalho, com Píffero e Luigi como núcleo do futebol, era algo especial. E era por isso, não querer perder nunca e introjetar esse gás nos atletas. Mas em algum ponto, isso se perdeu.

Não sei se com a conquista da Sul-Americana em 2008, mas certamente não muito antes nem muito depois, o Inter se deu a alcunha de “Campeão de Tudo”. Eu ia à loucura, com meus 17 anos, pensando que o meu time era isso tudo. Claro, considerando o contexto de competitividade que vivia o clube na época, “Campeão de Tudo” significava mais que uma análise a posteriori dos títulos, mas um grito de guerra a ecoar sempre novo nas competições a serem disputadas. Como um preâmbulo: “estais prestes a entender porque somos Campeões de Tudo”. Arrogantemente, prefiro a interpretação que acabo de vos dar do que a interpretação que parece ter permanecido nos arredores do bairro Menino Deus.

As cornetas coloradas, que surgiam em profusão na época – principalmente motivadas pelo jejum de títulos, pelo rebaixamento recente e pela derrota pesada do Grêmio na Libertadores 2007, faziam todos os meus colegas dividirem-se não mais entre gremistas em colorados, mas entre Tinga e Sandro Goiano. Tinga era a técnica, polivalência, inteligência de jogo, enquanto Sandro Goiano era a arma, o monstro, a própria personificação da raça. Vale o relato de que acredito ter sido em 2008 a primeira proclamação da pérola “Não comemoramos vaga”.  O Grêmio de Roth era o “time de operários” que ficou em segundo lugar no brasileiro, alcançando vaga à Libertadores.

Veio a Libertadores de 2010 e, por obra do destino, as quartas e as semifinais foram vencidas pelo Inter com derrota no segundo jogo. Se no primeiro, era triste que tivéssemos perdido para o Estudiantes – se bem me lembro, o Internacional demitiria o técnico Jorge Fossati alguns dias depois – a derrota para o São Paulo foi recebida com festas e rojões: graças à classificação do Chivas Guadalajara (que não poderia disputar o mundial por ser competidor convidado) à final, o Inter já estava garantido no Mundial de Clubes da FIFA! Longe de ser um prêmio, foi uma maldição: apesar de vencer ambos os jogos da final, perdemos a semifinal do Mundial para o Mazembe, como todos os anos de nossas vidas terei e tereis que relembrar.

O mal feito, por incrível que pareça, era muito mais profundo: a reação dolorida à vergonha em Abu Dhabi assumiu contornos como “Temos duas libertadores e um mundial da FIFA, coisa que o Grêmio não tem”. Percebeis? Isso é totalmente contra minha filosofia de esporte! Não precisa ser só melhor que o vizinho, precisa tentar ser o melhor! Essa cultura de “Campeão de Tudo” se tornara um trono no qual o clube, estagnado, se conformou.

De 2011 a 2016, o Internacional conquistou 6 campeonatos gaúchos consecutivos, aumentando para 45 o número de títulos frente os 36 do Grêmio. Em março de 2017, o Internacional empatou com o Tricolor mais uma vez, chegando a 130 empates num confronto que contava 154 vitórias para o meu time e 128 vitórias para o time do Marcelo. Reparai: o fato de o maior clássico do Brasil ter mais empates que vitórias do Grêmio foi comemorado por meus colegas alvirrubros. É o fim da competitividade, do desejo desesperado de vencer do Internacional.

Com o perdão do anacronismo do parágrafo anterior, me permito voltar um pouco a esse período de 6 anos. Não disputamos nada, desistimos de competições antes do final do primeiro turno e decidimos escolher as batalhas que travaríamos. Perdemos. 2013 acabou com o clube quase sendo rebaixado; 2014 terminou com uma vaga à Libertadores conseguida no susto – e muito comemorada, imerecida que era. 2015 Foi de Aguirre, Anderson, Vitinho, Argel e tudo isso foi conduzindo o clube inferno abaixo até o fim de 2016: Lisca não teve culpa na queda à série B, o Inter já flertava filosoficamente com ela há pelo menos 6 anos. Não menos sintomático do momento, era a crença de que “time grande não cai”. Não cai mesmo, mas o Inter se fez pequeno e caiu. (em tempo: crédito a Eduardo Deconto pela foto que tanto me irritou em 2016)

2017 foi um inferno, não só pela série B, mas porque parecia que o clube não queria aprender com os erros sucessivos que nos haviam cá trazido. Píffero, o presidente do Mazembe, do rebaixamento e com contas investigadas pelo TCU, não elegeu seu sucessor, Pedro Affatatto; Marcelo Medeiros teve mais de 95% dos votos. Se em 2016 tivemos 5 treinadores (Argel, Odair, Falcão, Roth e Lisca), em 2017 tivemos 3 (Zago, Odair e Guto). Se de 2011 a 2016 vencíamos o Gauchão cada ano com um técnico diferente (Falcão, Dorival, Dunga, Abel, Aguirre e Argel), Zago deixou o título escapar contra o Novo Hamburgo e não conseguiu impor ao Inter a filosofia de vencer sempre. Guto veio e, calejado do clube que é, conseguiu insuflar no time a teoria – mas faltava o gás. Agora teremos Odair como treinador efetivo em 2018 e, por mais preparado que esteja e respaldado pelo vestiário, será cobrado por uma resposta que precisa vir nos primeiros 100 dias – ou estará na rua.

Pelo menos, em 2018 estaremos na série A. Que meu time nunca mais se contente com o passado de glórias que teve. À frente e avante, INTER!

2 comentários em “Desabafo sobre a série B.

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