“As mulheres têm uma capacidade de renúncia maior que a dos homens. É por isso que elas são mais fortes que nós.”

Essa frase saiu da boca de um personagem (homem) durante um diálogo que deveria ter ocorrido por volta de 1940, em um livro que estou lendo. Mesmo tendo sido dita num contexto de cerca de 80 anos atrás, ela me causou desconforto, o que para mim é um forte indício de que tem alguma coisa mal resolvida nesse conteúdo.
É claro que, da forma como foi colocada, sem qualquer reflexão adicional e dita por um homem, a afirmação fez parecer que existe alguma aptidão natural das mulheres em fazer renúncias. Isso obviamente não é verdade. Mas, culturalmente, eu acho que as mulheres são, sim, mais preparadas ao longo da vida (talvez obrigadas?) a fazer renúncias do que os homens.

Me transportando para a época do livro, de onde saiu a frase, parecia haver um leque pequeno de opções de trabalho que uma mulher poderia ter, sendo os mais populares a maternidade e o cuidado com o lar. Algumas exceções eram professoras e outras trabalhavam no comércio da família (cuja gerência era feita por um homem). Àquela época as mulheres, de um lado, tinham muitos deveres, obrigações e expectativas a serem cumpridas; e, de outro lado, tinham pouco espaço para atenderem seus desejos, vontades e sonhos.
Essa cultura era ensinada desde criança para as meninas – e, não sei vocês, mas eu sinto consequências até hoje. Quantas vezes não me vi presa aos meus deveres e extremamente desconectada dos meus desejos? Quantas vezes já não me vi encarando a vida como um imenso checklist? Já o homem – e aqui reforçando o meu lugar de fala de mulher e tomando a liberdade de generalizar, desculpem qualquer coisa – parece ter uma facilidade muito maior em conciliar as duas coisas. Inclusive, talvez penda até para o outro extremo, o de não conseguir fazer renúncias…
Enfim, hoje as opções são muitas, e às mulheres é permitido sonhar e desejar. No entanto, muitas vezes, a simples permissão não é o suficiente para que consigamos de fato acessar esses conteúdos. Mesmo que sejamos autorizadas a desejar, vocês sentem que a carga das obrigações, deveres e expectativas saiu das nossas costas? Eu sinto que não… Se não soubermos dosar a energia empregada nas obrigações, não teremos reservas emocionais para os sonhos.
Bônus: essa vigília para manter nossos sonhos vivos é meio solitária e poucas pessoas vão genuinamente nos ajudar nessa missão – a maioria se beneficia mais justamente quando as mulheres estão focadas nas obrigações.

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