Eu e Você Sempre

Eu acho que eu sou um cara de hiperfocos. Durante o período de mudança, em que moramos com a minha vógra (a mãe da minha sogra) por 3 meses, por exemplo, eu encasquetei que tinha que aprender a montar um cubo mágico. Tudo bem que pode ter um mini trauma envolvido, em relação à Gincana Rosariense de 2008, quando minha equipe confiou que eu saberia resolver um em pouco tempo e o DOUGLAS conseguiu em menos de 4 minutos!!! Obrigado Douglas. Enfim.

Recentemente, graças ao Tiny Desk do Péricles, descobri que ele e o Jorge Aragão cantaram juntos a música Eu e Você Sempre. Essa é uma daquelas músicas que quando a gente ouve pela primeira vez (eu não ouvi pela primeira vez no Tiny Desk, hahah), parece que sempre conheceu. Aí ouvindo o Pericão cantar eu falei pra Ana “Ó, é essa a música que pode ser nossa marca registrada no karaokê!”. Claro que é uma música mais tranquila, não é como “Complicated” da Avril Lavigne, que agita todo e qualquer 30+, então talvez não seja o caso. Mas certamente tá no páreo – afinal um casal não pode ter só uma música, vai que cantam antes?? Mas voltando.

Aí eu entrei no hiperfoco dessa música. Cantarolando no banho, enquanto jogo vôlei (!!!) e a cada tempo livre eu pego o violão. É uma música tão macia, tão suave, tão Jorge Aragão, não dá pra parar de cantar, né? Aí, me esforçando pra lembrar a letra na ordem em que acontece, eu tive duas grandes revelações que mudam TODA a música pra mim. Vou colocar a letra aqui:

Logo, logo, assim que puder, vou telefonar
Por enquanto tá doendo
E quando a saudade quiser me deixar cantar
Vão saber que andei sofrendo

E que agora, longe de mim
Você possa, enfim
Ter felicidade
Nem que faça um tempo ruim
Não se sinta assim
Só pela metade

Ontem demorei pra dormir, tava assim, sei lá
Meio passional por dentro
Se eu tivesse o dom de fugir pra qualquer lugar
Ia feito um pé de vento

Sem pensar no que aconteceu
Nada, nada é meu
Nem meu pensamento
Por falar em nada que é meu
Encontrei o anel
Que você esqueceu

Aí foi que o barraco desabou
Nessa que meu barco se perdeu
Nele tá gravado só você e eu

VIRAM?? Tá, tô brincando, vou explicar:

1º: Nele tá gravado “só você e eu”

Todas as vezes que eu cantei essa música – até ontem – eu cantava assim: “Aí foi que o barraco desabou, Nessa que meu barco se perdeeeu, Nele tá gravado ‘Só você e eu'”. E, artisticamente, imaginava o seguinte:

Acontece que essa nossa (minha) sanha de separar o refrão da estrofe causa esse constrangimento. A música não fala de um barco onde está gravado o texto acima. Pra entender o que realmente deve ter sido a intenção do autor, ele diz primeiro: “Por falar em nada que é meu, encontrei o anel que você esqueceu”. Aí vem um comentário em metalinguagem, no sentido figurado: “aí que o meu barraco desabou, nessa que meu barco se perdeu” e depois ele volta a descrever a situação anterior: nele (no anel) está gravado “Só você e eu”. Eu fiquei desolado com a interpretação. Não é lúdico, não é um sentimento abstrato; é uma dor concreta, é a catarse de encontrar um ícone tão marcante da união de um casal – no momento em que esse casal já não mais é. O frio metal do anel não discerne a passagem do tempo e a deterioração do relacionamento, ele simplesmente resiste, se tornando um ícone, um relicário da impermanência que se pretende eterna.

2º Estruturas e Rimas

Num primeiro olhar, ele é bem estrito na composição: tem 2 estruturas de estrofe e uma de refrão: a primeira estrutura intercala versos de 13 e 7 sílabas poéticas, e a segunda estrutura tem trísticos, variando da sequência comum de 5-7-5 sílabas pra 7-5-5 na música. O refrão é um quarteto, com 9 sílabas nos dois primeiros versos e 5 nos dois últimos. Bem bonitinho, estruturado, poesia (quase) à moda antiga.

Mas aí, vamos olhar pras rimas, e nessa hora o subtexto invade o texto. O refrão só conecta segundo e quarto versos (a famosa rima de pé quebrado), o que pode passar despercebido mas, depois de ouvir a música 200 vezes em loop, me parece dizer algo mais. A primeira estrutura, que eu chamei de 13-7, é constante: sempre rima. E a segunda estrutura também exceto pela última estrofe. Vamos olhar de novo: “Sem pensar no que aconteceu, Nada, nada é meu, Nem meu pensamento, Por falar em nada que é meu, Encontrei o anel, Que você esqueceu“. VIRAM?? Tá, vou dizer o que eu vi:

O Jorge (vou presumir que foi ele, adoro esse nome também) começa a compor essa música para a ex-amada ainda sofrendo pelo término. Imagina que vai voltar a cantar em breve, mas que agora não dá – só pra escrever. Deseja, no melhor dos espíritos, tudo de bom para ela, que ela não se sinta mal pelo fim do romance. Aí confessa que teve vontade de fugir: física e metaforicamente. Aí ele vai um passo mais fundo na confissão e afunda, se abandona na angústia da solidão. Ele queria dizer que não controla nada, porque a única coisa que ele queria controlar ele não consegue; seu pensamento, que insiste em voltar para o casal recém rompido. Falando em “nada que é meu”, ela deixou com ele o anel dela (um anel que ele também tinha igual), uma aliança. Aí a estrutura se perde, pensamento não rima com esqueceu, figurativamente é até uma antirrima.

Nessa hora, não dá pra pensar nos trísticos, no cubo mágico, no raio que o parta. A letra visceraliza, se joga no fundo do copo de chope e, antes de completar a rima de “esqueceu” com “você e eu”, ele precisa lamuriar esse relato: aí que meu barraco desabou, nessa que meu barco se perdeu. Aí ele chorou, aí o sentimento transbordou, aí o que escapou de lágrima escorreu pelo bigode e virou verso. O poeta, entre soluços, repete o que ela já sabe e que ambos já sabem não ser mais verdade: nele está gravado “Só você e eu”.

Gênio.

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