Resenha: Vesúvio – Djavan (2018)

Nove anos atrás eu me encontrava delirando com o mestre Djavan em um de seus álbuns menos bajulados. Lembra? Foi aqui mesmo no Despressurizando! À época, eu tinha 26 anos, estava no primeiro emprego, morava com minha mãe e tinha uma namorada. Hoje, quase 10 anos depois, eu sou outro: a cada troca de emprego eu mudei de mercado de trabalho, saí da casa da minha mãe e casei com aquela namorada por quem sigo apaixonado. Talvez seja por isso que Djavan tanto me move – e comove.

Diz o meme da internet que quanto mais o tempo passa, mais vão ficando claras as letras de Djavan – a gente é que não tinha vivido o suficiente as emoções do cotidiano pra identificar. Semana passada, por acaso, a música Vesúvio (que dá título ao álbum de 2018 do homem) foi citada aqui em casa e eu ouvi o álbum novamente. Realmente, ouvir Djavan é olhar num caleidoscópio: as cores são as mesmas, o giro gera padrões repetidos, mas a intercalação é tão complexa e linda que a interpretação vai ganhando sentidos diferentes a cada vez que olhamos. É quase como se alguém tivesse dito “a poesia… quanto mais lida, mais ganha vida”!

Antes de começar a pirar em cada faixa, quero só registrar aqui – caso não seja óbvio: não sou capaz de asseverar o que o autor quis dizer, mal e mal conseguirei expressar o que ele me faz sentir e querer responder. Tende piedade.

Capa

Vesúvio é o nome de um vulcão ativo na Itália e o título tanto do álbum quanto da primeira música. Mas a capa mostra Djavan pintado de tinta negra, sob uma iluminação azul-clara. Da sobrancelha, dos lábios e dos dedos, despontam brilhos dourados. Há uma relação do vulcão com o ouro e o mar na música que eu vou deixar pro próximo parágrafo, mas essa capa me traz outra sensação: a de ver a intersecção dos trabalhos do garimpeiro e do artista. Ambos se consomem, se sujam, se exaurem com a busca de algo quase mítico, um fio ou uma pepita, que caprichosamente se esconde sob a superfície. Hoje, com IAs que fazem de tudo com um verniz mais ou menos dissimulado, Djavan e o garimpeiro ainda entregam um ganha-pão artesanal.

Vesúvio

No mesmo dia de lançamento do álbum, o clipe da primeira música foi lançado. Nele, a dançarina Mariana Gomes contracena com Djavan num vídeo que, assim como a letra, tem uma cadência falso-minimalista. O texto também tem esse disfarce, parece preguiçoso porque ao final de cada verso há um elemento repetitivo:

Verso 1: mas o mar tem onda
Verso 2: todo mar tem onda
Verso 3: o sol é de ouro
Verso 4: o sol cai no mar

Nas três estrofes é assim, o que conduz aos refrãos que explicam o que acontece quando o sol cai no mar. Essa, então, pra mim, é uma música sobre dualidade: tem duas histórias sendo contadas, cada uma numa metade do verso, como que em colunas. Na coluna da esquerda, o desenvolvimento caótico de um relacionamento que nasce despretensioso e surpreende o autor com sua tenacidade e vitalidade. Ao mesmo tempo na outra coluna, duas forças antagônicas e magníficas parecem se opor: o sol, de ouro, encontra o mar, que se revolve em ondas. Assim também o relacionamento se revolve e se transforma em uma coisa só. O Vesúvio, que pode entrar em erupção a qualquer momento tem um poder de, também a qualquer momento pode fazer dilúvio e as forças que poderiam ser antagônicas se tornam apenas uma, a onda de ouro, que conflui as borrascas e as calmarias do casal numa foz de prazer.

Solitude

Eu sempre falo que o Djavan gosta de escrever sobre amor. Nos shows que fui, ele repetiu isso. Mas tem algumas músicas, como “Por uma Vida em Paz”, em que ele fala sobre política com a mesma fluência. Mesmo assim, ele abre com amor em queda, mesmo tal moeda perde cotação. Nessa música, ele fala sobre como o nosso bem querer em relação ao outro se tornou condicional – e, bom, era 2018 né. Hoje mesmo eu mudei de opinião com um grande amigo me dizendo “mas isso não é o certo”. Agora me diz quem, no assunto política, nos últimos dez anos, quem, quem muda de ideia – sem se tornar ainda mais extremo no que já pensava?

É essa mentalidade de combate, de conflito, que mobiliza as pessoas. Longe de mim cair na falácia da falsa equivalência aqui, mas (respeitando as proporções e os usos da máquina pública) tanto Bolsonaro entre 2019-2022 quanto Lula desde 2023 passaram tempo expressivo de seus mandatos em campanha e, como o poeta descreve, guerra vende arma, mantém cargos, destrói sonhos – tudo de uma vez. E o fim da música apresenta a proposta política de solução: contra a solitude, a busca ao próximo, a coletividade, a recusa ao conceito de indivíduo (aquilo que não se pode fracionar) e o acolhimento do conceito de pessoa (aquele por quem o som passa, aquele que per sona, aquele que ouve).

Dores Gris

De volta à vaca fria, Djavan nessa música simplesmente abusa do vocabulário incrível que ele tem. Aqui é o refino técnico e linguístico da poesia barroca com o objeto da poesia arcadista. Então o começo da música registra de muitas formas como é viver com uma impossibilidade estatística sendo vista na realidade. Como a descrição da aplicação prática de antíteses teóricas não basta, ele literalmente desenha o que quer dizer: o vento austral sopra longitudinal as melenas da nau-solidão. Não entendeu?? No começo, nem eu, mas vamos lá: o vento norte sopra de leste a oeste os cabelos desse navio que é a solidão.

Aí as Dores Gris (gris é um tom de cinza, meio azulado) de quem ama e não é correspondido (portanto não é feliz) são uma praga da raiz (uma decorrência do ato de amar). Mas aqui e sempre, Djavan é o poeta, o louco, o amante: pois sem você não saberei quem sou – ou o que faço com tanto amor.

Tenho Medo de Ficar Só

Essa música diminui a rotação e os BPM para trazer um tom mais reflexivo – e eu sinto mesmo que o próprio Djavan (e não um de seus personagens) está nessa música pensando sobre inspiração. Claro, ele não corre o risco de ficar só, ele está já no seu segundo casamento de mais de 25 anos de duração, mas aqui me refiro a arroubos de inspiração. Quando esse branco acontece, o céu parece não dizer nada, tudo perde um pouco o aroma e a cor.

E a verdade que ele denota é que esse processo nem é necessariamente sobre a relação com outra pessoa, e sim sobre o que o sentimento faz com ele. Não importa se amado eu for, só me vale o que eu sinto. Logo, o medo que o título da música aponta não é o medo de ficar só, especificamente: é o medo de passar a viver como alguém que não ama ninguém, sem inspiração, sem vida mesmo.

Cedo ou Tarde

Essa música é uma indecisão, do início ao fim. Eu sinto (mas pode ser efeito de analisar a música em ano de eleição) que ele está fazendo uma reflexão sobre as lutas e os anseios de uma sociedade. Bom as coisas não estão fáceis pra ninguém, e isso é dito inclusive por aqueles pra quem as coisas estão fáceis. As dificuldades distribuídas em proporção inversa às oportunidades podem gerar dissabores e rancores, mas será que isso não tem também a sua beleza, o seu propósito?

Longe de querer passar um verniz de glamour à vulnerabilidade social, Djavan parece que também reconhece e enaltece o papel da resiliência, o valor da dor na formação e na construção dessa nossa sociedade – e claro, ele diz que o mal de quem ama é a fé como uma recusa em aceitar papeis sociais predeterminados, por amar um ideal, um projeto de vida e sociedade.

Orquídea

Isso aqui é fora do sério, se um dia eu chegar no céu e descobrir que Djavan escreveu essa música pra minha esposa, não vou ficar surpreso. Ele simplesmente escreveu uma música em honra a uma musa inspiradora, elogiando sua tenacidade, beleza, como as cores e as frangrâncias combinam com ela como se ela fosse ela mesma, a mulher, uma orquídea. Difícil, mas não no nível Djavan – ele pontilhou a música com termos em latim da constituição das orquídeas. Aí é loucura.

Viver é Dever

Eu relaciono muito a posição política do Djavan com a da Marina Silva – e eles são, possivelmente, meus dois brasileiros vivos preferidos. Vivos? Sei lá, acho que os dois brasileiros que eu mais admiro. Enfim. Nessa música, ele volta a falar sobre algo além de amor (ok, nem queira saber meu amor, o quanto eu te quero tá ali mas não é o foco) e eu sempre adoro. Ele entende – e eu também – que viver é compartilhar a vida. Novamente, como em Solitude (e em Pode Esquecer), ele traz esse conceito vivamente político da vida compartilhada.

Quando ele diz tudo vai mal, muito sal, eu acho incrível como ele fala de saúde, alimentação, capital, desejo, luxúria e no fim, ele só disse cinco palavras. O mundo paralelo (ou o Brasil) está sempre à espreita, por trás das nuvens, mas é óbvio que o amor como política afasta esse arrebol. Os ideais, bem como nossa biodiversidade, tem que ser reflorestada. O melhor é viver – e essa mensagem ganha todo um contexto diferente quando se olha o jornal em 2018 e se vê uma política de morte, de opressão e de ódio.

Madressilva

Essa música é… um quadro. Sem brincadeira, essa música é uma pintura. A começar pelo ritmo de valsa e a melodia que desafia essa cadência. Ela evoca imagens, aromas, uma tempestade glacial… O QUE É UMA TEMPESTADE GLACIAL? Eu não sei, mas eu imagino um cenário no extremo norte ou extremo sul global, onde se vê um casebre à beira de um cais dourado , com um imenso lago (ou mar) congelado à frente. A caminho da casa, o sorriso dela para ele o acende (ouvir “Baile”, também do Djavan) e também acende o entardecer lento dos polos, misturando fogo e gelo, lua e brilho, natureza e desejo, e aí o fogo aquece a lua imersa na luz do amor. MEU DEUS, isso é muito um quadro.

Ah, outra coisa, lá pro final ele se diz um ser de boa sorte (enquanto a música vai trazendo mais demãos de tinta e gerando tons novos) e que, com a amada, após navegar de mar em mar, ele encontrou um lugar para dali contemplar a história desse amor, desse casal, dessa vida compartilhada que inspira e traz contornos finais a essa pintura. Finais? Bom, isso é papo pra outra música, hehe.

Mãos Dadas

Essa música sempre me deixou sensível. Ela me transfere uma fragilidade tão doce que me faz ter medo de me partir, me quebrar um pouco. Parece uma justificativa (disfarçada de uma desculpa) para alguma atitude truculenta, provavelmente involuntária, do autor. Esse rabujo (existe essa palavra? acho que sim) é algo que escapa, numa época em que mil coisas já escaparam. Eu sinto, com muito carinho, que nessa música o Djavan confessa os males da fragilidade que a idade traz. Não mais (não digo “nunca mais” pra não ser enfático, mas) certas tardes já não mais virão…

De onde aflora o medo? Aflora de um possível ocaso do sentimento que guiou toda a vida de Djavan Viana (e imensa parte de sua produção): o amor. E assim, será que em algum momento não mais ele vai poder sair de mãos dadas por aí afora? Um sentimento que qualquer pessoa, que num impossível arroubo de coragem, toma a mão de seu alguém querido para caminhar, sente. Aquele sentimento que faz esquecer de onde se vem e pra onde se vai, pois o caminho em si só começou a se desenhar quando essas mãos se tocaram e – contra toda a probabilidade e efemeridade desse momento – se mantiveram juntas por segundos infinitos.

Meu Romance

Quando escrevi sobre Ares Sutis, no post de resenha do álbum “Rua dos Amores“, eu falei que aquela letra era quase epistemológica. Naquela teoria, conforme o tempo passava, a pessoa amante ia descobrindo ser cada vez mais o que devia ser, menos o que queria ser, até se dissolver por amor no ser-para-outro. Aqui, para opor a relação tóxica denunciada na carta de Ares Sutis, Djavan se derrete de amor nesse bolero. Nessa canção, ele chega a se orgulhar da sorte de se amar a quem se quer. Eu sou por amar você.

Aqui em Porto Alegre, quado a gente quer dizer que está quase saindo de casa, às vezes diz “eu estou por sair”. Ou quando algo está prester a acontecer, “está pela bola oito” (provavelmente uma referência da sinuca) e, quando uma pessoa se coloca a pleno dispor de outra, ela diz “estou por ti”. Aqui, Djavan poderia ser interpretado superficialmente como alguém que tenta usar um neologismo para parecer jovem – como eu tentando dançar o passinho do Jamal – mas não é isso. É lógica pura: Se amar a quem se quer é ser, eu sou (amo a quem quero) por amar você.

Entre Outras Mil

Essa música começa com uma levada quase militaresca, épica, e pra mim a letra tem mesmo esse sentido de jornada, epopeia. É a jornada do cantor, do trovador como o próprio Djavan também é. Nesse voo de passarinho, as desilusões da vida e do amor machucam suas frágeis asas, mas não o impedem de seguir.

Seguir para onde? Amigo, a vida dele só tem um sentido, na direção de um grande amor. Quiçá, alguém que o faça crer que possui o mundo. O que é importante na vida é amar, é ser amado, é encontrar a alma que com a nossa dança.

Um Quase Amor

Essa música é uma comédia antiga. Um sitcom dos anos 90. A trilha sonora de um filme “10 coisas que eu odeio em você”. Ela aponta que a própria falta de acontecimento num não-relacionamento pode ser uma rotina recheada de não-eventos. E como esses quase fatos nos movem! Esses dias vi um meme falando que deve ser uma tortura ter combatido na Guerra dos Cem Anos, vivido as grandes navegações e morrido muito além do Tejo pra, 500 anos depois, ser despertado do sono eterno para responder pra Cíntia se o conversante dela que ela conhece há 10 dias pode ser o grandeamor da vida dela. Essa perspectiva de futuro que o quase amor tem é palpável, é morna e felpuda.

Honestamente, pra mim essa música é sobre um climinha, um talvez inocente despertar de química entre duas pessoas, que às vezes vem do nada, surgida até diretamente no passado – porque quando estávamos no momento, não entendemos aquilo pelo que era. E, portanto, não era nada.

Esplendor

Senhoras e senhores, Jorge Drexler! É assustador como essa música funciona tão bem em uruguaio quanto na versão brasileira. E que voz aveludada, precisa, firme – a do Drexler também, claro. Soy quein soy por amarte. Um encerramento perfeito, em uma música simples, regravada nessa parceria incrível, com um finalzinho acappella.

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