Transitoriedade

Acabei de entregar um trabalho de faculdade que faz uma análise de dois poemas românticos britânicos e quis trazê-la aqui. Primeiro, os poemas; depois, meus 2 centavos.

So We’ll Go No More a Roving

Lord Byron

So, we’ll go no more a roving
So late into the night,
Though the heart be still as loving,
And the moon be still as bright.

For the sword outwears its sheath,
And the soul wears out the breast,
And the heart must pause to breathe,
And love itself have rest.

Though the night was made for loving,
And the day returns too soon,
Yet we’ll go no more a roving


Mutability

Percy Bysshe Shelley

1

The flower that smiles today
Tomorrow dies;
All that we wish to stay,
Tempts and then flies.
What is this world’s delight?
Lightning that mocks the night,
Brief even as bright.
Then wake to weep.

2

Virtue, how frail it is!
Friendship how rare!
Love, how it sells poor bliss
For proud despair!
But we, though soon they fall,
Survive their joy and all
Which ours we call.

3

Whilst skies are blue and bright,
Whilst flowers are gay,
Whilst eyes that change ere night
Make glad the day,
Whilst yet the calm hours creep,
Dream thou—and from thy sleep
Then wake to weep.


Ambas as obras Mutability (Percy Bysshe Shelley) e So We’ll Go No More a Roving (Lord Byron) trazem uma subjetividade e uma identificação das emoções às forças da natureza que são recorrentes na literatura inglesa em poesia romântica. Dois dos maiores poetas produzidos pela Grã-Bretanha olham para o mundo ao seu redor e veem nele o reflexo dos seus próprios sentimentos e reflexões sobre a vida e sobre o amor. No caso dos dois poemas analisados, um tema parece conectá-los para além das similaridades estilísticas: a efemeridade da vida e sua imprevisibilidade.

Iniciando pelo poema de Shelley, a imagem que o autor tenta desenhar é a do esforço contínuo do ser humano em alterar a imobilidade do eterno a partir de seus feitos momentâneos. Assim como a rosa que nasce em um dia para morrer no seguinte, como o raio que ilumina a noite outrora escura por alguns instantes para depois devolvê-la ao breu, também é a ação humana, que é breve e brilhante. Nós também somos parte dessa natureza, desse caos momentâneo que interrompe períodos de silêncio. Tudo no poema é frágil, propenso à mudança e insensível ao choro ou à dor dos espectadores.

Já a poesia composta por Lord Byron me recorda muito a música “De Mãos Dadas”, do nosso Djavan. Em ambas as letras, há o sentimento contido de que a experiência, a idade e a passagem do tempo afetam não só o corpo humano, mas as características do mundo para o poeta. Se Byron afirma que não passeará mais mesmo que a noite seja feita para o amor, o amar e os amantes, Djavan diz que “não digo nunca mais, pra não ser enfático, mas certas tardes já não mais virão”. Embora fique claro que o amor em si não se desgasta, o que vive de amor sim. Esse precisa de descanso, de repouso.

Deixando o mestre brasileiro um pouco de lado e retornando à poesia britânica romântica, se nota que ambos os autores usam imagens do mundo exterior para refletir estados interiores: a luz do luar conota intimidade, o relâmpago sugere pressa, celeridade. A natureza, nesses poemas, é um personagem que empresta seus adjetivos aos humanos. Aliás, a natureza é tão personagem que corações param para respirar, que flores sorriem e nada é cenário, tudo é diálogo.

Há, é claro, uma diferença cortante entre os dois poemas, no que se refere ao tom de voz aplicado. “Then wake to weep” é seco, sombrio, ecoa não só como a vida é fugaz, mas também como é insensível aos apelos e às tristezas daqueles em seu meio. Já “Though the night was made for loving” apresenta uma consentida, resoluta compreensão da limitação humana, de uma natureza que tristemente se despede de nós e permanece cíclica, vendo novas flores e novos amantes sob a luz da lua. Ambos os poemas, concluindo, trazem essa sensação: de que há sentido, há beleza e, principalmente, há transitoriedade na vida humana.

Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑